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Dedé da Mulatinha na ótica de um repórter espanhol

  Muitos são os folcloristas que se dedicam ao estudo da nossa literatura de cordel, seus cantadores e repentistas; desde Câmara Cascudo a Átila Almeida, passando por pesquisadores da nossa cultura popular, como José Alves Sobrinho. Uns poucos jornalistas se enveredam por essa trilha, caminho esse que lhes é desconhecido, considerada as peculiaridades do povo nordestino. Para nossa surpresa nos deparamos com uma matéria de um repórter espanhol, que visitando a Paraíba, registrou as suas impressões em um veículo de comunicação conhecido por “Brecha”. O autor inicia o seu trabalho descrevendo o cotidiano da feira de Campina Grande e sua miscigenação. Em frente ao Cassino Eldorado, depara-se com um cantador. É José (Dedé) Patrício de Souza, quem lhe chama a atenção: “ Dedê da Mulatinha. Un vendedor de raíces de unos ochenta años. Raíces para el corazón. Para el estómago. Para un sexo sin límites. Una española picarona compra estas últimas. Dedê es poeta. Canta sus versos y los v...

Passeio no varal, de Magna Celi (por José Mário da Silva Branco)

  Passeio no Varal integra o espólio poético que Magna Celi, já há algum tempo, vem escrevendo e esculpindo nos horizontes das paisagens literárias da Paraíba. Salvo engano de minha memória, essa cidade das traições, no dizer do genial Machado de Assis, ou espelho partido, conforme a sentença proferida, por José Saramago, em seus Cadernos de Lanzarote, eu conheci a professora Celi numa das edições dos monumentais Congressos Internacionais de Teoria e Crítica Literária, que, ao longo de vários anos, sob a regência da professora Elizabeth Marinheiro, transformava a cidade de Campina Grande, numa mágica semana de setembro, na capital mundial da reflexão literária, das abalizadas discussões engendradas pelo labiríntico universo da teoria e da crítica literária, com a multiplicidade das suas correntes e tendências. Nesses memoráveis e inesquecíveis conclaves, Campina Grande sempre se fez presente com os seus renovados valores literários, com o seu ouro da casa, em todas as modalidades...

Sol: visita à penitenciária modelo

  Transcrevo a seguir reportagem especial do jornal "O Imparcial", publicado na então capital federal do país (Rio) em 09 de de junho de 1923, acerca da visita da Turma de Direito à Penitenciária de S. Paulo, com destaque para o nosso poeta Silvino Olavo: "Conforme noticiamos regressou, anteontem, a embaixada acadêmica carioca, que fora a São Paulo em excursão de estudos. A respeito do que viram e aprenderam nessa viagem os estudantes da Universidade, teve a gentileza de nos conceder a entrevista abaixo o distinto acadêmico Silvino Olavo, que fez parte, como orador, da turma itinerante. “Trago de S. Paulo uma impressão inextinguível de progresso e de beleza. Nunca, na minha vida acadêmica, me foi dado ensejo de recolher em minha alma mais avultada soma de júbilo, como durante esses dias de festividade, e fortes emoções na capital paulista e na cidade de Santos. A cativante gentileza dos nossos colegas do tradicional “Centro Onze de Agosto” – um dos poucos que tem ver...

A parceria de Zé Alves e João Benedito

José Alves Sobrinho José Alves Sobrinho (1921/2011) nasceu José Clementino de Souto na Fazenda Pedro Paulo pertencente a seus pais, no Município de Picuí, que hoje pertence a Pedra Lavrada, no Estado da Paraíba. Adotou o nome artístico por imposição de seu pai, pois cantador de viola à época não era bem quisto, e assim o fez para evitar constrangimentos. Iniciou na cantoria aos 13 anos, mas aos 38 perdeu a voz, dedicando-se ao estudo e a pesquisa da poesia popular. João Benedito (1860-1943), cantador popular, nasceu João Viana dos Santos, no Município de Esperança, nesse mesmo Estado. Não chegou a ser escravo, pois já nasceu livre. Trabalhava nas feiras livres, onde muitas vezes declamou seus versos. Fazia “garrafadas” e remédios homeopáticos. Para muitos era a “alma dos cantadores”, e foi professor de muitos poetas. É o próprio Zé Alves que nos dá notícia dessa parceria em seu livro “Cantadores com quem cantei” (Bagagem: 2009). Disse tê-lo conhecido na cidade de Cuité, quando este...

Dr. Sebastião Araújo

  O Dr. Sebastião Araújo nasceu neste Município de Esperança na Paraíba. Era filho de José Pereira de Araújo e Maria Virgínia de Araújo. Cursou medicina na Bahia, juntamente com o Dr. Heleno Henriques (1927), concluindo os estudos em 1930. Casou-se com Elvira Lima, filha de Francisco Jesuíno de Lima, de cujo consórcio nasceram os filhos: Maria Elvira (1933) e Raimundo (1937). Residia na rua Senador Epitácio nº 332 (hoje Avenida Manoel Rodrigues de Oliveira). Porém o seu consultório estava estabelecido na rua Solon de Lucena nº 26. Também possuía um imóvel na Praça Quintino Bocaiúva nº 22, registrada no Cartório de Imóveis às fls. 105/106 do Livro nº 72. Era metódico em sua profissão. Mantinha pouco contato com os clientes, segundo se comenta, pois temia ser acometido de alguma doença. Todavia, prestava muita assistência social e pouco se importava com a remuneração. Consta do Anuário da Paraíba (1934) que o Dr. Sebastião Araújo era clínico geral, com especialidade nas “ Mol...

Monte do retorno na Lagoa de Pedra

  Markgraf: 1643 A Província da Paraíba esteve sob o domínio holandês, sob os cuidados de Elias Herckmans (1596-1644). A sua biografia traçou-lhe Alfredo de Carvalho: na Holanda, durante o verão, era um marinheiro de barcos que comercializava com os russos; no inverno voltava-se às letras, tendo escrito contos, tragédias e poemas épicos. Para nós, é de suma importância o seu relato no livro “Descrição Geral da Capitania da Paraíba” (1639), um registro etnográfico, econômico e geográfico da “Pará-ayba” (água má, rio ruim, na língua geral). No governo desta capitania, organizou uma expedição, composta por cem homens, com o objetivo de desbravar o “Sertão da Cupaoba”, para nós o Planalto da Borborema. Percorreram um longo caminho, passando pela aldeia Guirarembuca (atual cidade de Pilões) – onde os indígenas que acompanharam os viajantes reconheceram como sendo a sua habitação em tempos antigos, relatando que foram atraídos pelos portugueses para o litoral –, até chegarem a uma ...

Eclipse solar em Esperança

  O ano era 1940. O fenômeno o “eclipse”, um evento astronômico de transição dos corpos celestes visível a olho nú. Neste caso, o sol sendo encoberto pela lua, o que dura alguns minutos. Porém, uma eternidade para quem vivenciou naquele tempo, de pouco conhecimento sobre os fatos. Há muito relatos, pois a Paraíba, pelo que parece, sempre foi um local de boa visualização. A minha avó materna, por exemplo, conta que as galinhas começaram a cacarejar e de pronto se recolheram ao poleiro; as vacas mugiam, admiradas com o anoitecer breve. O misticismo envolta daquele escurecer parecia apocalíptico. Muitas pessoas ao ter aquela visão imaginaram ser o “fim do mundo”, e confessaram seus pecados temendo a condenação eterna. Foi um grande desespero naquelas terras do Algodão, onde os meus avós possuíam propriedade. As comunicações ainda não tinham chegado e o pouco que se sabia era transmitido pelos cordéis da feira. Evaldo Brasil, de igual modo, nos informa os seus registros familiare...

A invasão dos flagelados em '53

  A seca é um fenômeno que sempre tem castigado o Nordeste brasileiro. A estiagem de 1953 do Século passado foi um dos maiores flagelos já existentes, causando inúmeros danos a população. O alimento ficou escasso. Homens migraram de sua terra natal em busca de socorro. Muitos deles aportaram em Esperança, causando um alvoroço e deixando o comércio local bastante preocupado como se vê das notas de jornais a seguir. O prefeito Francisco Bezerra da Silva telegrafou ao governo do Estado explicando a situação: “ESPERANÇA, 2/3/53 – Comunico vossência cidade invdida 400 flagelados. Comércio fechado temendo saque. Estou providenciando transporte referidos flagelados serviço estrada Lagoa Roça-Campina. Atenciosas saudações – Francisco Bezerra – Prefeito”. As principais autoridades da cidade também externavam a aflição, por ver o pequeno município ganhar em pouco tempo inúmeros trabalhadores, sem ter condições de ofertar emprego a todos: “ESPERANÇA, Comunico a Vossência que estacio...