O Sítio Cabeça de Boi, ou simplesmente “Cabeço”, localiza-se na divisa dos municípios de Esperança e Pocinhos. Ele possui uma importância topográfica e historiográfica local.
Reinaldo de Oliveira Sobrinho, em sua
obra “Esboço de Monografia do Município de Areia”, publicada em 1958, constata
que o marco delimitatório do município de Esperança esteve situado nas margens
do Rio Cabeço, dentro dos limites da referida propriedade, pelo menos até a
década de 1950. Vejamos:
“COM ESPERANÇA: Começa na foz do
Riacho do Boi, no Riachão, sobe por ele até a sua nascente; e por uma linha
reta até alcançar o marco nº 5, na Olaria de Pedro Batista, à margem do Riacho
do mesmo nome; desce pelo referido riacho até a sua foz, no Rio Araçagi; desce
ainda esse rio até cortar o caminho carroçável que passa em Meia Pataca,
Maniçoba, Umbu e 68, prossegue pelo referido caminho até encontrar o marco nº 3
(de Esperança), colocado à margem do Rio Cabeço, na fazenda do mesmo nome”
(SOBRINHO: 1958, p. 31).
Como se pode ver, a linha
demarcatória com o município de Esperança iniciava-se na foz do Riacho do Boi. O
traçado prosseguia em declive pelo curso d'água até desaguar no Rio Araçagi,
seguindo o fluxo deste rio até a área identificada como 68. O limite continuava
por essa via de acesso até encontrar o já mencionado marco de Nº. 3,
consolidando a Fazenda Cabeço como um ponto geográfico para a demarcação
político-administrativa da região.
As informações indicam que as
proprietárias mais antigas conhecidas eram duas senhoras solteiras, referidas
na linguagem local da época como “moças velhas”, detentoras de grande riqueza
material. O registro histórico aponta para um cenário de convivência pacífica
entre essas proprietárias e os povos originários da região, os indígenas da
nação Cariri, identificados pelo pesquisador José Elias Borges como
pertencentes ao subgrupo dos “Banabuyés”.
Uma publicação de “O Jornal”, veiculada
em 05 de outubro de 1924, comunicava a venda da propriedade com uma descrição
detalhada de sua infraestrutura produtiva naquele momento. O anúncio destacava
a presença de dois grandes cercados delimitados por arame, diversos tanques
para armazenamento de água, a tradicional casa de vivenda com o seu respectivo
curral, e, de forma bastante expressiva, um enorme jazigo de pedra calcária.
Este recurso mineral já se encontrava
em fase de exploração econômica ativa, contando inclusive com um grande forno
construído especificamente para o beneficiamento da pedra calcária,
demonstrando que a fazenda não se restringia à pecuária de subsistência, mas
possuía um perfil de exploração industrial incipiente.
A extensão da Fazenda Cabeço
compreendia a faixa de terra que se iniciava na formação geológica conhecida
como Lajedo e se estendia até a Pedra do Caboclo, com importante reservatóris
de água, tais como o Tanque da Chave, o Tanque do Café e a Lagoa de Nana, esta
última frequentemente utilizada para o banho das crianças da família.
No centro das narrativas sobre a
propriedade encontra-se “a antiga casa de pedras” do Cabeço, erguida
integralmente com pedras locais e madeira de lei, datando de um período
histórico remoto. A residência era composta por dois quartos, sala, cozinha e
um sótão, ambiente este que, segundo a memória oral da região, era destinado ao
alojamento dos escravizados que trabalhavam na propriedade.
A casa fora construída por grandes
toras que sustentavam a cobertura de telhas. Os detalhes incluíam escadarias e
tetos. As aberturas, como portas e janelas, apresentavam batentes de proporções
avantajadas, e no entorno havia um curral construído com a mesma alvenaria de
pedra.
A edificação, que àquela altura já
superava dois séculos de existência, encontrou o seu fim estrutural por volta
do ano de 1958, quando o então proprietário, Antônio Ferreira, conhecido na
região por “Antôin Guiné”, decidiu proceder com a demolição completa da casa
antiga de pedras. Como ato de preservação memorial, o proprietário guardou
apenas uma telha original, a qual continha o registro gravado do ano de sua construção.
Nas proximidades do Rio Curimataú,
havia ainda outra edificação de pedra que servia de moradia para moradores
específicos, como o senhor Manoel Elias e Andreza, a qual, em períodos de
ausência dos donos, pernoitava na casa grande para garantir a segurança ou
manutenção da propriedade.
Com o passar do tempo, a fazenda registrou
alguns moradores e agregados, entre eles destacavam-se figuras como Severino
Grande e Abdias. Havia também Pedro Grande, que habitava próximo ao açude, e
Joaquim Calango, cuja moradia abrigava três famílias distintas entre um grande
salão.
A família “Calango” possuía forte
ligação de confiança com os proprietários, evidenciada pelo fato de Maria
Calango atuar como madrinha e babá de Maria José (Marizé).
A equipe de vaqueiros era composta
por João Guilherme, Zacarias e Pedro Guilherme, este último casado com Maria
Cândido. Outras famílias numerosas, como a de Antonio Guedes, também habitavam
as terras do Cabeço.
A estrutura social contava com
trabalhadores rurais dedicados à colheita, como o apanhador de algodão
conhecido pela alcunha de “Doutor Raiz”. Outros moradores mencionados incluem
Joaquim Moreno, seu filho Manoel Moreno, Zé Alaú e Salú, sendo este último o
pai de Augusta, que também exercia a função de babá de outra criança da
família, chamada Glória.
O Sítio Cabeço desempenhou um papel
relevante no desenvolvimento educacional e cultural da região. A localidade foi
berço de Manoel Gomes Sobreira, nascido na propriedade no ano de 1855, que
chegou a ser proprietário de metade das terras. Sobreira notabilizou-se como
educador, operando como mestre escola na localidade de Alagoa Nova e mantendo
um externato no município de Esperança.
Além de suas contribuições
pedagógicas, ele destacou-se no meio intelectual da época como poeta e
charadista, publicando diversos logogrifos na Gazeta do Sertão, periódico de
orientação democrata liderado por Irineu Joffily.
Também na época de Antônio Ferreira
funcionou uma sala de aula para os moradores da fazenda. Uma professora fora
contratada para dar aula, a qual passou a residir juntamente com os
proprietários.
Registros históricos também confirmam
a passagem do célebre cangaceiro Antônio Silvino pelas terras da propriedade,
no dia 19 de novembro de 1914. Este evento reveste-se de particular importância
por ter ocorrido em um período imediatamente anterior à sua captura.
A presença do “Rifle de Ouro” na
fazenda gerou episódios que se perpetuaram na literatura popular. O incidente
mais notório ocorrido durante essa incursão envolveu um disparo efetuado pelo
cangaceiro contra um boi, conforme descrito no folhedo “História Completa de
Antônio Silvino”, de autoria de Francisco das Chagas Batista.
O relato de “botijas” e “aparições”
na casa de pedras constitui o principal enredo folcórido de lendas, juntamente
com a conhecida “Pedra do Caboclo”, que era o limite daquela propriedade.
Rau Ferreira
Referencias:
- Acervo pessoal e familiar,
depoimento da Sra. Maria Ferreira Costa (Glória).
- O JORNAL, Diário Político e
Noticioso. Direção de Joaquim Pessoa C. de Albuquerque. Edição de 05 de
outubro. Parahyba do Norte: 1924.
- SOBRINHO, Reinaldo de Oliveira.
Esboço de monografia do Município de Areia. Coleção Arquivos Paraibanos. Imp.
Official. João Pessoa/PB: 1958.

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