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Eleusio Freire e o algodão colorido


O algodão é de fibras brancas e somente 0,5% se constitui de fibras coloridas, o que nos resta uma questão: os algodões coloridos são transgênicos? A resposta é “não”, e quem nos informa é o agrônomo Dr. Eleusio Curvelo Freire, formado pela Universidade Federal da Paraíba, com mestrado em Fitotecnia pelo Centro de Ciências Agrárias da Universidade do Ceará. Possui o título de Doutorado em melhoramento de plantas pela Universidade de São Paulo – USP.

No Brasil desde o seu descobrimento houve relato da existência de algodões cultivados pelos indígenas. Posteriormente estes algodões foram chamados de “rim de boi” (porque tinham sementes coladas) quebradinho (sementes descoladas) todos conhecidos genericamente como tipos arbóreos.

No início do século XX surgiu um tipo de algodão arbóreo conhecido como algodão mocó porque tinha sementes semelhantes as fezes do roedor de mesmo nome. Este algodão foi selecionado por produtores do Seridó do Rio Grande do Norte e foi uma grande fonte de renda e empregos no semiárido do Nordeste.

“Na verdade, o algodão colorido da Paraíba surgiu a partir de coletas de algodões asselvajados que coletamos em serras do nordeste especialmente do Rio Grande do Norte e Ceará. Quando o bicudo do algodoeiro surgiu no Brasil sabíamos que sua consequência seria catastrófica para o algodão brasileiro levando ao desaparecimento dos germoplasmas nativos”, explica Eleusio.

O esperancense, filho de Licínio Curvelo e dona Maria do Carmo, é considerado o “papa” do algodão colorido, por ser o maior especialista desta cultura no país. Ele liderou os trabalhos de melhoramento genético que resultou no desenvolvimento de variedades naturalmente coloridas no Brasil e esteve à frente dos programas de plantas oleaginosas alternativas (1983), em especial, o gergelim, amendoim e a mamona. Criou mais de vinte cultivares de algodão (1989/2005) nos cerrados brasileiros, incluindo o BR200 (a primeira variedade colorida) e a renomada CNPA ITA 90.

Assim relata o primo Eleusio, descendente do tronco de Cândido Raimundo Freire, do qual papai também tem origem a partir de duas grandes mulheres: Júlia e Rita Cananéa:

“Este algodão mocó também ficou conhecido como arbóreo, moco ou Seridó. Iniciamos as coletas para preservar estes algodões arbóreos para a posteridade evitando que o bicudo quando proliferasse acabasse com os mesmos.

Nestas coletas foram achados mais de 600 tipos diferentes de algodões e entre estes encontramos 30 tipos com fibras coloridas de creme a marrom. Com estas coletas formamos um banco de germoplasma da Embrapa em Patos-PB de algodoeiros mocó e um outro menor com os 30 tipos coloridos separados porque a épica a valorização era só para fibras brancas. Sempre recebíamos visitas na Embrapa de pesquisadores e industriais têxteis que vinham conhecer as nobres qualidades de fibra do algodoeiro mocó.

Numa destas visitas de empresários japoneses eles viram as linhas de fibras coloridas e manifestaram interesse na compra destas fibras.

Informei que aqueles materiais não tinham sido aperfeiçoados, mas que eu poderia fazer isto e criar uma variedade comercial colorida em futuro próximo. Daí começou o trabalho de melhoramento genético e agronômico do algodão colorido”.

 

O algodoeiro mocó chegou a ser plantado em dois milhões de hectares no Nordeste e com o surgimento do bicudo e políticas de convivência erradas foi totalmente extinto, sobrando apenas as 600 espécies coletadas por Eleusio Freire e sua equipe.

Sobre o algodão colorido, Freire ainda nos reporta a extensão de seu trabalho de pesquisa, para além das fronteiras do nosso país:

“Visitei áreas do Peru e México e fotografei múmias com roupas de algodões coloridos. O algodão colorido deles era diferente do nosso por serem cultivamos em montanhas com mais de 2.000m de altura e os nossos coloridos são de serras e regiões entre 200 a 550 m e de regiões mais áridas”.

 

Eleusio assumiu a chefia da Embrapa, em Campina Grande, a partir dos anos 2000, sendo muito requisitado por empresárias do ramo de confecção da cidade que buscavam algo especial para expor na São Paulo Fashion Week:

“Informei que tinha um algodão colorido e elas poderiam fazer roupas sem uso de corantes e expor nesta feira. A sra Maísa Gadelha era a líder das empresárias e receberam a ideia com entusiasmos.

Forneci um fardo com menos de 200 kg de fibras coloridas, que elas fiaram, teceram e fizeram uma série de roupas de algodão colorido natural. Expuseram da Feira em São Paulo e foi um sucesso de público e vendas.

Na volta a Sra. Maisa disse que precisava de toneladas desta fibra que me dispus a produzir e fornecer alguns meses depois. A partir daí teve uma grande ação de marketing e de moda em que a Embrapa participou junto com uma cooperativa de confecções conhecida como Natural Fashion que levou a exposições do algodão colorido na maioria das capitais brasileiras, inclusive em Brasília onde a Ápex (agência de promoção das exportações) elegeu o algodão colorido como bandeira brasileira a expor em eventos internacionais.

O somatório das ações públicas (Embrapa, Prefeitura de Campina Grande e governo do Estado) e privadas (FIEP, indústrias de confecção, ONGs) tornaram o algodão colorido da Paraíba como uma das principais comodities do Estado, que continua evoluindo com novas pesquisas de cores, servindo de modelo de desenvolvimento para outros estados RN, PE, CE, PI, TO, PA.

Mas a Paraíba é onde o modelo mais evoluiu e se consolidou e se mantém como uma cadeia produtiva mais integrada”.

 

O Dr. Eleusio Freire tem trinta e dois artigos científicos publicados no País e um no exterior, além de ser autor de quatro livros sobre a cultura do algodão.

O algodão no Cerrado

Ele é fundador da Cotton Consultoria, já tendo sido agraciado com o prêmio Frederico da Embrapa por sua trajetória de pesquisador e a expertise no desenvolvimento de sementes adaptadas às condições do Nordeste e controle de pragas na cotonicultura.

Para ele, a sua maior contribuição para é o desenvolvimento da tecnologia para o cultivo do algodão no cerrado, onde hoje são plantados 2 milhões de hectares. Isso possibilitou o Brasil a se tornar o terceiro maior produtor do mundo e o primeiro em exportação, com um faturamento de US$ 2 Bilhões.

“O meu mérito foi ter nascido em Esperança, ter estudado a vida toda em escolas públicas e ter evoluído em conhecimento e experiências”, finalizou.

A tecnologia desenvolvida por Eleusio Freire a partir de 1989, fez com que ele fosse agraciado com o prêmio Personalidade do Algodão do Brasil no ano de 2007.

 

Rau Ferreira

 

Fontes:

- Informações prestadas por Eleusio Freire, e colhidas no Instagram da wagrotton (@wagrocotton), em 12/12/2025.

Comentários

  1. O "Ouro Branco" tempos da indústria e do período da revolução industrial na Europa foi um produto agrícola muito usado para o crescimento econômico mundial.

    No Brasil o NORDESTE era a região que produzia em quantidade, e, surgiu uma burguesia CAMPINENSE que comprava toda produção e enviava para Europa.

    Lembro ate do processo de CERCAMENTO na EUROPA, onde as propriedades rurais eram compradas para criação de ovelhas para produzir lã que juntamente com o algodão eram usados nas indústrias.

    Com a venda das propriedades houve um êxodo rural para as cidades, que incharam sem estrutura e, sem saneamento básico muitas doenças chegaram nas cidades como Inglaterra, França e veio a "Peste Negra" que ocasionou e muitas mortes, uma dizimação total.

    José Henriques da Rocha, via WhatsApp em 14/01/2026, às 09:18 horas

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