Pular para o conteúdo principal

João Benedito e a literatura de cordel


João Benedito (1860-1943) foi um dos maiorais do repente. O poeta esperancense era temido pelo
seus adversários, muitos dos quais deitaram a viola, dando-se por vencido na peleja, em sinal de respeito ao velho cantor esperancense.

Josué Alves da Cruz – um dos grandes artistas paraibanos – dizia que ele tinha “boa memória e peito fino”. Egídio de Oliveira Lima menciona (Os Folhetos de Cordel: 1978, p. 217) que João possuía uma memória prodigiosa e que costumava declamar alguns cordéis nas feiras livres, sítios e fazendas que frequentava. Ele que de escravo chegou a ser professor de cantoria, tendo José Alves Sobrinho como célebre aluno.

Do velho cantor não se tem muita coisa escrita de sua produção, mesmo porque a maioria dos estudiosos afirmam que ele era cantador, de onde se supõe que os versos eram feitos de improviso ou de “repente”, como se diz no Nordeste. Porém, dos poucos registros de que dispomos, observamos a grandiosidade da sua rima. Eis uma sextilha reproduzida por F. Coutinho Filho:

“Há entre o homem e o tempo

Contradições bem fatais

O homem não faz mais diz,

O tempo não diz mas faz,

O homem não traz nem leva,

Mas o tempo leva e traz!”

Pelo que consta, sabia de cor pelo menos dez folhetos escritos por Leandro Gomes de Barros, dos quais podemos citar: A História da Princesa da Pedra Fina, Os Sofrimentos de Alzira e A Força do Amor. Enquanto recitava as estrofes fazia comentários sobre a obra ou o enredo do cordel.

Quando declamava “A Força do Amor”, a pedido dos ouvintes, fazia “uma introdução arrancada do seu juízo”, como nos informa Egídio Lima, cujos versos iniciais a seguir reproduzo:

“Vou atender, pois fizeram

A mim, um grande pedido,

O romance de Mariana,

De todos o mais querido,

Vale a pena ser cantado

Por ser muito compungido.

 

É a FORÇA DO AMOR

Um trabalho de bom porte,

O amante no final

Teve suplício de morte,

E a Vingança de Marina

Mostrava o seu gênio forte.”

Este introito segue por pelo menos duas estrofes, porém não é nossa intenção nos alongar, porquanto esta coluna não nos permite ir além do espaço concedido pelo Jornal A União, o qual devemos respeitar. Caso o leitor dele tenha interesse, consulte “Os Folhetos de Cordel”, ou adquiria a nossa biografia (O Mestre da Cantoria), publicado pelas Edições Banabuyé.

Egídio narra que João “sacodia os dedos na viola” para suspender a cantoria, enrolava o cigarro ou tomava uma “pinga” naquela pausa, aumentando assim o suspende da estória. Assim pintava o quadro com sensacionalismo, chamando a atenção da sua plateia, arrancando suspiros e lágrimas.

 

Rau Ferreira

Comentários

  1. Bom dia, sr. Rau. Me chamo Guthierri, sou pesquisador de Itaporanga/PB. O sr. teria alguma fotografia do padre João Borges de Sales? Pelo que vi, era natural de Esperança.

    ResponderExcluir
  2. Bom dia, sr. Rau. Me chamo Guthierri, sou pesquisador de Itaporanga/PB. O sr. teria alguma fotografia do padre João Borges de Sales? Pelo que vi, era natural de Esperança.

    ResponderExcluir
  3. Consegui uma, se lhe interessar, envie-me um e-mail: guthierrilimq@gmail.com.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário! A sua participação é muito importante para a construção de nossa história.

Postagens mais visitadas deste blog

Matias Grangeiro

Matias Grangeiro nasceu no dia 20 de abril de 1941, filho do também comerciante Severino Grangeiro de Maria. Casado com a Sra. Luciene Honorato, era pai de cinco filhos: Fabiana (in memorian), Miguell, Renato, Fábio e Taiana; esta última, primeira dama de nosso Município. I niciou no comércio com uma torrefação de café - o Dona Branca -   em 1968, na Rua José Andrade da Silva. Após a extinção desta firma , devido a forte concorrência , ingressou na revenda de móveis e eletrodomésticos (1975), fundando a “Matias Grangeiro & Cia. Ltda” com o nome fantasia de DECORAMA . Esta chegou a ter 26 filiais no Estado (oão Pessoa, Campina Grande, Santa Rita, Cabedelo, Guarabira, Mamanguape, Queimadas, Alagoa Grande, Solânea, Areia, Bananeiras, Cuité, Remígio, Picuí, Pocinhos, Barra de Santa Rosa, Soledade, Arara, Nova Floresta, etc.), com 220 funcionário e gerando cerca de 300 empregos diretos. Com o sucesso que obteve neste ramo , abriu filiais nas cidades de...

Padre Luiz Santiago. Suas origens

Padre Luiz Santiago Onde nasceu o Padre Luiz Santiago? Antes, porém, precisamos responder quem foi este clérigo polêmico e ousado; filósofo, arqueólogo, historiador, escritor e piloto de avião, uma personalidade com ideias muito avançadas para o seu tempo. Os seus pais Delfim Izidro de Moura e Antonia de Andrade Santiago uniram-se em casamento no Sítio Lagoa Verde, em Esperança, a 18 de novembro de 1896, de onde seguiram para residir numa propriedade na Meia Pataca. Fruto desse enlace matrimonial, nasceu em 25 de agosto de 1897 um filho, a quem deram o nome de "Luiz". A “Meia Pataca” é uma comunidade rural na divisa de Esperança e Remígio, dividida por um acidente geográfico, ficando assim chamada de “Meia Pataca de Cima” e “Meia Pataca de Baixo”. A maior parte pertence a Esperança, terra agricultável para feijão e batatinha, sendo assim chamada, pela tradição, por ali ter sido encontrada uma moeda de valor. Uma áurea de mistério envolve o lugar. O menino cresceu o...

Os Oliveira Ledo e o Município de Esperança

A família Oliveira Lêdo foi uma das primeiras a se estabelecer no interior da Paraíba. A partir de concessões de Sesmarias pela Coroa Portuguesa, nos Séculos XVII e XVIII, eles abriram caminhos e fundaram aldeias que permitiram o avanço da pecuária e o povoamento do Cariri Velho e Agreste. A ocupação da área onde hoje fica Esperança começou com o casal Marinha Pereira de Araújo e João da Rocha Pinto, que eram descendentes diretos do patriarca Custódio de Oliveira Lêdo. O casal estabeleceu currais nessa região por volta do século XIX, além de fundar a Fazenda Banabuyé. Essa fazenda de gado ocupava as terras que atualmente constituem o território urbano e rural do Município, servindo como o primeiro ponto de habitação colonial. Conforme inventário e registros genealógicos, citados no livro “Os Oliveira Ledo e a Genealogia de Santa Rosa” (1978), o casal deixou filhos que se espalharam e se casaram com outras famílias tradicionais da elite agrária, fracionando a terra através de hera...

Ruas tradicionais de Esperança-PB

Silvino Olavo escreveu que Esperança tinha um “ beiral de casas brancas e baixinhas ” (Retorno: Cysne, 1924). Naquela época, a cidade se resumia a poucas ruas em torno do “ largo da matriz ”. Algumas delas, por tradição, ainda conservam seus nomes populares que o tempo não consegue apagar , saiba quais. A sabedoria popular batizou algumas ruas da nossa cidade e muitos dos nomes tem uma razão de ser. A título de curiosidade citemos: Rua do Sertão : rua Dr. Solon de Lucena, era o caminho para o Sertão. Rua Nova: rua Presidente João Pessoa, porque era mais nova que a Solon de Lucena. Rua do Boi: rua Senador Epitácio Pessoa, por ela passavam as boiadas para o brejo. Rua de Areia: rua Antenor Navarro, era caminho para a cidade de Areia. Rua Chã da Bala : Avenida Manuel Rodrigues de Oliveira, ali se registrou um grande tiroteio. Rua de Baixo : rua Silvino Olavo da Costa, por ter casas baixas, onde a residência de nº 60 ainda resiste ao tempo. Rua da Lagoa : rua Joaquim Santigao, devido ao...

Dom Manuel Palmeira da Rocha

Dom Palmeira. Foto: Esperança de Ouro Dom Manuel Palmeira da Rocha foi o padre que mais tempo permaneceu em nossa paróquia (29 anos). Um homem dinâmico e inquieto, preocupado com as questões sociais. Como grande empreendedor que era, sua administração não se resumiu as questões meramente paroquianas, excedendo em muito as suas tarefas espirituais para atender os mais pobres de nossa terra. Dono de uma personalidade forte e marcante, comenta-se que era uma pessoa bastante fechada. Nesta foto ao lado, uma rara oportunidade de vê-lo sorrindo. “Fiz ciente a paróquia que vim a serviço da obediência” (Padre Palmeira, Livro Tombo I, p. 130), enfatizou ele em seu discurso de posse. Nascido aos 02 de março de 1919, filho de Luiz José da Rocha e Ana Palmeira da Rocha, o padre Manuel Palmeira da Rocha assumiu a Paróquia em 25 de fevereiro de 1951, em substituição ao Monsenhor João Honório de Melo, e permaneceu até julho de 1980. A sua administração paroquial foi marcada por uma intensa at...