seus adversários, muitos dos quais deitaram a viola, dando-se por vencido na peleja, em sinal de respeito ao velho cantor esperancense.
Josué Alves da Cruz –
um dos grandes artistas paraibanos – dizia que ele tinha “boa memória e peito
fino”. Egídio de Oliveira Lima menciona (Os Folhetos de Cordel: 1978, p. 217)
que João possuía uma memória prodigiosa e que costumava declamar alguns cordéis
nas feiras livres, sítios e fazendas que frequentava. Ele que de escravo chegou
a ser professor de cantoria, tendo José Alves Sobrinho como célebre aluno.
Do velho cantor não se
tem muita coisa escrita de sua produção, mesmo porque a maioria dos estudiosos
afirmam que ele era cantador, de onde se supõe que os versos eram feitos de
improviso ou de “repente”, como se diz no Nordeste. Porém, dos poucos registros
de que dispomos, observamos a grandiosidade da sua rima. Eis uma sextilha
reproduzida por F. Coutinho Filho:
“Há entre o homem e o tempo
Contradições bem fatais
O homem não faz mais diz,
O tempo não diz mas faz,
O homem não traz nem leva,
Mas o tempo leva e traz!”
Pelo que consta, sabia
de cor pelo menos dez folhetos escritos por Leandro Gomes de Barros, dos quais
podemos citar: A História da Princesa da Pedra Fina, Os Sofrimentos de Alzira e
A Força do Amor. Enquanto recitava as estrofes fazia comentários sobre a obra
ou o enredo do cordel.
Quando declamava “A
Força do Amor”, a pedido dos ouvintes, fazia “uma introdução arrancada do seu
juízo”, como nos informa Egídio Lima, cujos versos iniciais a seguir reproduzo:
“Vou atender, pois fizeram
A mim, um grande pedido,
O romance de Mariana,
De todos o mais querido,
Vale a pena ser cantado
Por ser muito compungido.
É a FORÇA DO AMOR
Um trabalho de bom porte,
O amante no final
Teve suplício de morte,
E a Vingança de Marina
Mostrava o seu gênio forte.”
Este introito segue por
pelo menos duas estrofes, porém não é nossa intenção nos alongar, porquanto
esta coluna não nos permite ir além do espaço concedido pelo Jornal A União, o
qual devemos respeitar. Caso o leitor dele tenha interesse, consulte “Os
Folhetos de Cordel”, ou adquiria a nossa biografia (O Mestre da Cantoria),
publicado pelas Edições Banabuyé.
Egídio narra que João
“sacodia os dedos na viola” para suspender a cantoria, enrolava o cigarro ou
tomava uma “pinga” naquela pausa, aumentando assim o suspende da estória. Assim
pintava o quadro com sensacionalismo, chamando a atenção da sua plateia,
arrancando suspiros e lágrimas.
Rau Ferreira

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