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A tradição do "branco" em Esperança

 


Há muito que os fiéis de Esperança adotaram as roupas brancas nas solenidades da Paróquia do “Bom Conselho”. Essa é uma tradição imemorial: meninos e meninas se batizam de branco, fazem seus primeiros votos e os confirmam na adolescente. Também os noivos se casam com a cor que representa paz, inocência, virgindade e pureza. O branco tem sido a preferência nessa terra adusta de clima tropical.

O Monsenhor José Coutinho em um de seus artigos comenta que de fato essa é uma tradição muito antiga e que deveria ser preservada, inclusive recomendando ao Padre Palmeira que assim o fizesse.

Em artigo para o jornal O Norte, que reproduzimos a seguir um pequeno enxerto, o Padre Zé comenta quais eram as principais vestimentas que lhe eram conhecidas desde criança:

Na Paróquia de Esperança existe uma tradição muito interessante, que o Revdmo. Vigário, Padre Manuel Palmeira, deseja continuar e eu acho q deve ser generalizada, por todo Nordeste, seco e adusto – os fiéis, homens e senhoras, comparecem, nos dias de grandes festas religiosas, sempre de branco.

[...] Pois, desde menino, ouço dizer que a indumentária, completa, de quem não pode ter diversas roupas, ‘de primeira’, das solenidades, cívicas, religiosas etc. para tomar parte, em várias é um terno de brim branco, com um par de sapatos pretos.

O macacão de mescla para o trabalho, o kaque para a feira, o brim de cor para os domingos comuns e o alvo, para os festivos – eis o guarda-roupa completo, da nossa classe média e sub-média” (O Norte: 24/08/1952).

Todavia, o uso do branco não é exclusividade dos fiéis, e daqueles que fazem votos, também as irmandades adotaram a cor da pureza em seus trajes, a exemplo da Irmandade do Santíssimo e do Sagrado Coração de Maria, cujo fardamento é de todo claro com algumas indumentárias.

A fotografia mais antiga dos irmãos desta paróquia, ao lado da gruta da Matriz, mostra os homens trajados de ternos e coletes.

A preferência pelo alvo talvez se justifique por ser de fácil confecção, não sendo tão caro, e para colocar todos em situação de igualdade, sem distingui pessoas de maior ou menor poder aquisitivo.

A esse respeito, complementa o Padre Zé:

É bem verdade que, um ou outro, mais ricaço, não esquece de um ‘tropical’, no verão, e um abafado ‘palitosão’ de gazemira, non inverso.

O grosso das tropas, porém, a não ser poucos completamente escravizados, pelos terríveis caprichos da ‘granfinazem’ que tantos males produz, além de outros, o enfraquecimento da roça, julga-se impecavelmente vestido, quando entona m terno branco em par de sapatos pretos que, dizem inúmeros, ficam bem, com roupas de qualquer cor” (O Norte: 24/08/1952).

O Padre Zé – que é candidato a santo na Paraíba – comenta ainda que é uma beleza ver a multidão de branco e que dessa forma “junta-se ao econômico o belo”. No mencionado texto, adverte que não existe proibição, porém sempre que possível, recomenda-se o branco em especial nas procissões do 16 de novembro:

Por causa da cor de roupas, ninguém deixe de comparecer.

Neste particular, não existe proibição nem exclusividade.

Mas, quanto possível, repito, compareçam todos de branco, não só os que residem em Banabuié, como também os que forem de fora”(O Norte: 24/08/1952).

Por fim, respondendo aos “do contra”, diz o Padre Zé que para evitar a poeira, para aqueles que viajam na seca, usem um vestidinho leve por cima do outro etc. para evitar o “guarda-pó”.

 

Rau Ferreira

 

 

Referências:

- HOORNAERT, Eduardo. HAUCK, João Fabundes. História da Igreja no Brasil: ensaio de interpretação a partir do povo. Volume 1. 2ª ed. Vozes: 1977.

- O NORTE, Jornal. A Romaria de dezesseis de novembro. Monsenhor José Coutinho para a edição de 24 de agosto. João Pessoa/PB: 1952.

Comentários

  1. Muito bom. Mas curiosidade me invade: Que procissão ocorre (ocorria) e 16 de novembro? Onde poderia ver a foto descrita?
    Parabéns pelo belo retorno!

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