Pular para o conteúdo principal

O Zorro em Esperança


Por Eliomar Rodrigues de Farias*

 

No final dos anos 50, o Grupo Escolar Irineu Joffily, situado à rua Joviniano Sobreira, em Esperança, Paraíba, era todo murado com altura de aproximadamente 2 (dois) metros e possuía apenas uma entrada, na rua Joviniano Sobreira, através de um portão de ferro largo com 2 (dois) metros de altura.

No prédio haviam corredores que dava acesso às salas de aulas. Ao lado balaustrada, que era uma fileira de pequenas colunas que sustentavam um corrimão ou peitoril, formando um parapeito ou grade decorativa, comum em escadarias, varandas e terraços para dar suporte e segurança.

Pois bem, nesse espaço, quando não havia aulas, Eu (Cem de Tutu), Beinha do Sr. Dorgival, Elifas, Tida Tavera, Marcos de Tutu, João de Sr. Anisio, os filhos de D. Aderita: Jadailton, Gilson, Jaime, Janilton e outros colegas que não lembro no momento, todos moravam próximo ao Grupo Escolar, aproveitávamos esse horário sem aulas para jogar.

Usávamos bolas de meias, por nós produzidas. Os jogos eram diversos, mas jogávamos muito o baleado, era um jogo que tinha como regra, não ser atingido por um determinado tempo apenas e para sair vencedor, não poderia ser atingido nenhuma vez, durante 10 (dez) rodadas. Era brincadeira de adolescente e não existia nenhuma maldade.

Ruim era quando éramos flagrados pelo inspetor, aí sim, quem fosse reconhecido era castigado. Mas era bastante divertido e bom para nossa saúde.

Jogávamos também futebol de salão na quadra do grupo e futebol americano, que acontecia no espaço do lado esquerdo do Grupo. Esses não havia castigo, pois não havia danos ao Grupo Escolar. Infelizmente não me recordo o nome de todos que participavam dessas brincadeiras.

Na mesma época, surgiu uma figura para nos amedrontar durante as noites em Esperança, lembrava muito a imagem do lendário justiceiro, “Zorro”, pois ele usava roupas pretas, mascara, chapéu preto e também uma espada de madeira, nos perseguia, fugíamos as pressas, pois não sabíamos do que se tratava.

Então passamos a nos preparar para enfrentá-lo, cada um de nós, montamos nossas próprias espadas de madeira, pois não poderíamos combater de mãos vazias, passamos a treinar uns com os outros para enfrentá-lo. 

Daí então, gerou um tipo de investigação por parte da turma, para descobrir quem era o “Zorro”, era nossa meta.

No início foi difícil, pois a turma estava sempre junta e se fosse um de nós, sabia de nossos planos. Mas, os mais habilidosos da turma para escalar e correr em cima do muro do grupo Escolar, eram Tita e Beinha.

Iniciamos nossa caçada, desconfiando dos dois. Como Beinha nunca estava conosco, em suas aparições, que teve início no começo da rua Teotônio Tertuliano da Costa, mais conhecido como o Beco do Motor velho. 

Tempos depois, quando a turma começou a pressioná-lo em perseguição, cada um da turma, portava sua espada, então ele corria em direção ao prédio em frente à Rua Cassemiro Jesuíno de Lima, onde funcionava o gerador de energia que atendia a residência do prefeito de Esperança, o Zorro, entrava numa plantação de pinhas que existia nessa área, entre a rua e o muro do Grupo Escolar, pulava o muro e desparecia.

Naquela noite e nas noites seguintes, suas aparições passou a acontecer com mais frequência, correndo em cima do muro e fazendo seu espetáculo na parte interna do Grupo Escolar, a notícia se espalhou e o trecho da rua em frente ao Grupo, as pessoas que ali passavam, ficaram curiosos e aglomerações foram se formando, naquela confusão e como era frente a residência Sr. Dorgival, ele saiu para ver o que estava acontecendo, procurava por seu filho entre os presentes, como não o encontrou, entrou em casa e fechou a porta.

No final chegamos a conclusão que o Zorro poderia ser Beinha, mas não tínhamos certeza, poderia ser coincidência. Mas quem poderia ser então?

Tempos depois o Zorro deixou de aparecer, então Beinha nos contou que era ele o Zorro. Finalizando assim, a história da figura do Zorro em Esperança, até hoje é lembrado por quem vivenciou nessa época.

 

Eliomar Rodrigues de Farias

 

(*) Eliomar é Engenheiro Elétrico, graduado pela Escola Politécnica (1974), com especialidade em Distribuição de Energia pela UFPE (1977), ex-professor do Assta e Estadual da Prata (1973/74), além de autor do livro “Família Rodrigues e Lima – minha história” (Ideia: 2016).

Comentários

  1. "Oh, rapaz... Fiquei imaginando que não saberia quem era nesse relato e... Só se resolveria o mistério em uma continuação. Mas mesmo assim, instigante. Agradeço ao filho do Zorro por este registro. Parabéns!".

    Evaldo Brasil, via WhatsApp em 28/01/2026, às 08:49 horas.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário! A sua participação é muito importante para a construção de nossa história.

Postagens mais visitadas deste blog

Odaildo e a explosão da fábrica de fogos

Tragédia marcante em nosso município foi a explosão da fábrica de fogos, ocorrido em 22 de abril de 1949. Já escrevi sobre este episódio em dois capítulos, porém hoje trago um relato do ex-prefeito Odaildo Taveira. O velho amigo, que nos deixou no início de agosto deste ano de 2026, conhecia muito da história local, com quem conversava sempre que nos encontrávamos. Disse ele sobre aquele fatídico dia: “Eu era criança, morava na rua Paroquial e, no momento da explosão bem pela manhã, saímos de casa apavorados e me lembro bem numa conversa entre meu pai e seu Tiano e seu Patrício. Ouvi quando seu Tiano dizia foi a garrafa de oxigênio da oficina de Inácio Ferreira. Interessante é que quando tomaram conhecimento do acontecido foi que viram a grande tragédia. Várias pessoas morreram e pedaços de pessoas havia por todas as imediações da fábrica. Dona Mariinha de seu Ernesto Bezerra tinha um forno de barro de assar bolo. Onde foi parar as vísceras completa de uma das vítimas. Na casa ...

Matias Grangeiro

Matias Grangeiro nasceu no dia 20 de abril de 1941, filho do também comerciante Severino Grangeiro de Maria. Casado com a Sra. Luciene Honorato, era pai de cinco filhos: Fabiana (in memorian), Miguell, Renato, Fábio e Taiana; esta última, primeira dama de nosso Município. I niciou no comércio com uma torrefação de café - o Dona Branca -   em 1968, na Rua José Andrade da Silva. Após a extinção desta firma , devido a forte concorrência , ingressou na revenda de móveis e eletrodomésticos (1975), fundando a “Matias Grangeiro & Cia. Ltda” com o nome fantasia de DECORAMA . Esta chegou a ter 26 filiais no Estado (oão Pessoa, Campina Grande, Santa Rita, Cabedelo, Guarabira, Mamanguape, Queimadas, Alagoa Grande, Solânea, Areia, Bananeiras, Cuité, Remígio, Picuí, Pocinhos, Barra de Santa Rosa, Soledade, Arara, Nova Floresta, etc.), com 220 funcionário e gerando cerca de 300 empregos diretos. Com o sucesso que obteve neste ramo , abriu filiais nas cidades de...

Ruas tradicionais de Esperança-PB

Silvino Olavo escreveu que Esperança tinha um “ beiral de casas brancas e baixinhas ” (Retorno: Cysne, 1924). Naquela época, a cidade se resumia a poucas ruas em torno do “ largo da matriz ”. Algumas delas, por tradição, ainda conservam seus nomes populares que o tempo não consegue apagar , saiba quais. A sabedoria popular batizou algumas ruas da nossa cidade e muitos dos nomes tem uma razão de ser. A título de curiosidade citemos: Rua do Sertão : rua Dr. Solon de Lucena, era o caminho para o Sertão. Rua Nova: rua Presidente João Pessoa, porque era mais nova que a Solon de Lucena. Rua do Boi: rua Senador Epitácio Pessoa, por ela passavam as boiadas para o brejo. Rua de Areia: rua Antenor Navarro, era caminho para a cidade de Areia. Rua Chã da Bala : Avenida Manuel Rodrigues de Oliveira, ali se registrou um grande tiroteio. Rua de Baixo : rua Silvino Olavo da Costa, por ter casas baixas, onde a residência de nº 60 ainda resiste ao tempo. Rua da Lagoa : rua Joaquim Santigao, devido ao...

Celeiro de cantadores

Esses dias me deparei com a notícia de Arnaldo Cipriano, cantador afamado que participou do VI Congresso de Nacional de Violeiros acontecido entre os dias 6 a 9 de setembro 1979, no Município de Campina Grande, produzido pela Associação de Repentistas e Poetas Nordestinos com o apoio da Furne. O poeta estava inscrito como representante de Esperança, para exibição de quatro minutos, sem contagem de ponto, para declarar um dos gêneros sorteados na competição (Rojão Pernambucano, Meia quadra, Toada alagoana, Gabinete, Quadrão perguntado e Martelo alagoano). Dentre os participantes, Otacílio Batista, Palmirinha, Fenelon Dantas, João Paraibano, Louro Branco entre outros. Arnaldo tocou muito em Esperança no “ hotel de Dona Bina, no antigo beco de Chico Bezerra ” (Inácio Gonçalves), pois lá tinha “ um repente... no beco aos sábados... muitos paravam para ver ” (Sandro Andrade). Com efeito, muitos cantadores adotaram Esperança como morada, passando a residir neste Município que era muito ...

História de Massabielle

Capela de Massabiele Massabielle fica a cerca de 12 Km do centro de Esperança, sendo uma das comunidades mais afastadas da nossa zona urbana. Na sua história há duas pessoas de suma importância: José Vieira e Padre Palmeira. José Vieira foi um dos primeiros moradores a residir na localidade e durante muitos anos constituiu a força política da região. Vereador por seis legislaturas (1963, 1968, 1972, 1976, 1982 e 1988) e duas suplências, foi ele quem cedeu um terreno para a construção da Capela de Nossa Senhora de Lourdes. Padre Palmeira dispensa qualquer apresentação. Foi o vigário que administrou por mais tempo a nossa paróquia (1951-1980), sendo responsável pela construção de escolas, capelas, conclusão dos trabalhos do Ginásio Diocesano e fundação da Maternidade, além de diversas obras sociais. Conta a tradição que Monsenhor Palmeira celebrou uma missa campal no Sítio Benefício, com a colaboração de seu Zé Vieira, que era Irmão do Santíssimo. O encontro religioso reuniu muitas...