Severino Cândido Costa era “carapina”, e exercia esse ofício na pequena
cidade de Esperança, porém sua grande paixão era a música. Conta-se que nas
horas de folga dedilhava a sua viola com o pensamento distante, pensando em
inventar um instrumento que, nem ele mesmo, sabia que existia.
Certo dia, deparou-se com a gravura de uma harpa e, a partir de então,
tudo passou a fazer sentido, pois era este instrumento que imaginara. Porém, o
moço tinha um espírito inventivo e decidiu reinventá-la.
Passou a procurar no comércio local as peças para a sua construção, porém
não as encontrando fez uso do que encontrava. Com os “cobrinhos do minguado
salário” foi adquirindo peças velhas de carro, de bicicleta e tudo o mais que
poderia ser aproveitado. Juntou tudo e criou a sua “harpa pianeira”, como fora
batizada.
A coisa ficou meia esquisita, mas era funcional, como
registrou a Revista do Globo:
“Era um
instrumento híbrido, meio veículo, meio arco de índio: uma chapa de ferro em
forma de arco, ligadas as duas extremidades por corda de piano. No centro da chapa
de ferro, engrenagens construídas com peças de bicicleta e de automóvel servem
para afinar a harpa, que é tangida com um formão e uma haste cilíndrica de aço”
(Vol 24, 1952: p. 3).
O instrumento se parecia mais com um berimbau do que com uma harpa
propriamente dita, talvez ele tenha se deixado influenciar com o monocórdio que
era mais comum na nossa região. No entanto, com ela tocava de tudo: baião,
valsa, samba... e recebia os aplausos dos esperancenses que elogiavam a criação
inovadora. Alguns amigos chegaram a dizer-lhe que ele ficaria rico se mostrasse
a invenção em terras paulistanas.
Não deu outra, Severino empolgado com o sucesso do instrumento, ajuntou
tudo o que tinha, pôs em uma carrocinha e foi empurrando o veículo em direção a
São Paulo. Percorreu os 3.800 Km em três meses de caminhada.
Chegou “harpejante” ao seu destino, trocadilho que usaram, tendo em
vista o instrumento que carregava em sua longa trajetória. A frustração não foi
pouca, pois os paulistas eram ocupados demais para se incomodarem com o som da
sua “pianeira”.
Depois de uma semana de luta na “pauliceia desvairada”, parafraseando
Mário de Andrade, bateu às portas da polícia procurando um “tranco”, um
“empreguinho”, não precisava lá ser grandes coisas, como ele mesmo disse: “qualquer
coisa serve. Na profissão ou como empregado doméstico, não importa”.
Terminava assim os seus dias de inventor para ganhar a vida de maneira
honesta na “terra da garoa”. Essa é mais uma história entre tantas de
paraibanos usam dos seus talentos na luta pela sobrevivência.
Rau Ferreira
Referências:
- O GLOVO, Revista (do).
Volume 24. Rio de Janeiro/RJ: 1952.
- FERREIRA, Rau. Banaboé Cariá:
Recortes Historiográficos do Município de Esperança. A
União. Esperança/PB: 2015.