Pular para o conteúdo principal

Monte do retorno na Lagoa de Pedra

 

Markgraf: 1643

A Província da Paraíba esteve sob o domínio holandês, sob os cuidados de Elias Herckmans (1596-1644). A sua biografia traçou-lhe Alfredo de Carvalho: na Holanda, durante o verão, era um marinheiro de barcos que comercializava com os russos; no inverno voltava-se às letras, tendo escrito contos, tragédias e poemas épicos.

Para nós, é de suma importância o seu relato no livro “Descrição Geral da Capitania da Paraíba” (1639), um registro etnográfico, econômico e geográfico da “Pará-ayba” (água má, rio ruim, na língua geral).

No governo desta capitania, organizou uma expedição, composta por cem homens, com o objetivo de desbravar o “Sertão da Cupaoba”, para nós o Planalto da Borborema.

Percorreram um longo caminho, passando pela aldeia Guirarembuca (atual cidade de Pilões) – onde os indígenas que acompanharam os viajantes reconheceram como sendo a sua habitação em tempos antigos, relatando que foram atraídos pelos portugueses para o litoral –, até chegarem a uma antiga aldeia indígena, com o nome de Arambé, que havia sido tomada por Duarte da Silveira. A região corresponde à área hoje ocupada por Solânea e Bananeiras.

A partir deste ponto houveram muitas queixas, não apenas por parte dos silvícolas, mas também dos soldados que os acompanhavam, pois diziam estar sendo “conduzidos para onde a natureza negava caminho”.

A marcha seguiu para Sudoeste, alcançando eles um monte de onde se avistava a serra da Cupaoba, numa distância de nove ou dez léguas. E agravando-se os queixumes, consentiu Elias que a tropa retornasse, dando àquele lugar o nome de “Monte do Retorno”, ou “Steenem-Keerberg”, em sua língua materna.

Há um consenso geral entre os historiadores, de que este monte “coincide com a atual cidade paraibana de Esperança, nas cabeceiras do rio Araçaji” (Olavo de Medeiros Filho) e que “possivelmente é o morro situado no povoado de Lagoa de Pedra, no município de Esperança” (Levy Pereira).

Também do nosso interesse é a descrição dos Tapuias, que habitavam aquelas terras, descritos por Herckmans como sendo “robustos e de grande estatura, ossos grosos e fortes” que andavam nus, em “vida bestial e descuidosa”, enquanto que as mulheres eram baixas. Eram inexcedíveis na perseguição aos inimigos, venciam um cavalo à galope, porém marchavam de forma desordenada.

Celebravam o casamento com júbilo e honra, entre gritaria de mulheres e crianças, no resumo de Eduardo Tourinho:

listrados de negro-azul do jenipapo e do rubro-laranja do urucu – dançavam noites a fio... Podiam desposar várias mulheres. Mas quando morria algum principal ou algum de seus filhos, era o cadáver assado e comido pelas esposas que tivesse. Isto porque ‘não podia ser melhor guardado ou enterrado do que em seus corpos’.

[...].

Os Tapuias de que fala Elias Herckmans eram, provavelmente, os Kariris ou Kirel – que às populações nordestinas legaram inconfundível cabeça chata e de quem pouco sabemos. Teriam, - antes do Descobrimento – descido até a Bahia, que chamaram Quirimure e onde há localidades que guardam suas vozes, tal Centossé e Uáuá” (Correio da Manhã: 1958).

As terras da Lagoa de Pedra foram concedidas por Sesmarias em 13 de junho de 1713, ao cidadão Mateus de Araújo Rocha, no Governo de João da Maia da Gama, gleba essa que foi tombada sob nº 107. Elas pertenceram depois ao Conego José Antunes Brandão, e constituíam a única fazenda de gado da região.

 

Rau Ferreira

 

Referências:

-  MEDEIROS, Coriolando de. Dictionário corográfico do Estado da Paraíba. 2ª Ed. Ministério da Educação e Saúde Pública: Departamento de Imprensa Nacional: 1950.

- BRITO, Flávio Ramalho (de). Um holandês a caminho da Serra da Copaoba. Carlos Romero, Site. Disponível em: https://www.carlosromero.com.br/2023/05/um-holandes-caminho-da-serra-da-copaoba.html, acesso em 17/09/2023.

- CÂMARA, Epaminondas. Os alicerces de Campina Grande: esboço hitórico-social do povoado e da vida, 1697-1864. Edições Caravela: 1999.

- FERREIRA, Rau. Banaboé Cariá: Recortes Historiográficos do Município de Esperança. A União. Esperança/PB: 2015.

- FREIRE, José Avelar. Alagoa Grande – Sua história: de 1625 a 2000. Volume I. A União: 2002.

- GENEALOGIA SERTANEJA, Blog. Serra da Copaoba – Elias Herckmans. Disponível em: http://genealogiasertaneja.blogspot.com/2013/06/serra-da-copaoba-elias-herckmans.html, acesso em 20/09/2023.

- SOARES, Francisco de Assis Ouriques. Bôa Vista de Sancta Roza: de fazenda à municipalidade. Campina Grande/PB. Epgraf: 2003.

- TAVARES, João de Lyra. Apontamentos para a História Territorial da Paraíba, Vol. I, Imp. Of., Pb., 1910.

- TOURINHO, Eduardo. A desgraçada aventura de Elias Herckman. Correio da Manhã. 5º Caderno. Edição de 03 de agosto. Rio de Janeiro/RJ: 1958.

Comentários

  1. Agora sim. De posse desse documento de fôlego, tratarei essa imagem e acrescentarei em nossa postagem sobre aquele nosso inselberg. Parabéns!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentário! A sua participação é muito importante para a construção de nossa história.

Postagens mais visitadas deste blog

Dom Manuel Palmeira da Rocha

Dom Palmeira. Foto: Esperança de Ouro Dom Manuel Palmeira da Rocha foi o padre que mais tempo permaneceu em nossa paróquia (29 anos). Um homem dinâmico e inquieto, preocupado com as questões sociais. Como grande empreendedor que era, sua administração não se resumiu as questões meramente paroquianas, excedendo em muito as suas tarefas espirituais para atender os mais pobres de nossa terra. Dono de uma personalidade forte e marcante, comenta-se que era uma pessoa bastante fechada. Nesta foto ao lado, uma rara oportunidade de vê-lo sorrindo. “Fiz ciente a paróquia que vim a serviço da obediência” (Padre Palmeira, Livro Tombo I, p. 130), enfatizou ele em seu discurso de posse. Nascido aos 02 de março de 1919, filho de Luiz José da Rocha e Ana Palmeira da Rocha, o padre Manuel Palmeira da Rocha assumiu a Paróquia em 25 de fevereiro de 1951, em substituição ao Monsenhor João Honório de Melo, e permaneceu até julho de 1980. A sua administração paroquial foi marcada por uma intensa at...

Ginásio Diocesano de Esperança

Ginásio Diocesano de Esperança (PB) O Ginásio Diocesano de Esperança, pertencente à Paróquia, teve sua pedra inaugural lançada em 1945 na administração do Padre João Honório, mas somente foi concluído em 1953 pelo então pároco Manuel Palmeira da Rocha. As aulas iniciaram no ano letivo de 1958, com os Cursos Primário e Ginasial.  E a primeira turma, com 52 alunos, formou-se no dia dia 10 de dezembro de 1961 . Os estatutos da nova escola que funcionaria no sistema de semi-internato, foram publicados no Diário Oficial de junho de 1952, passando a funcionar efetivamente em 1957. O curso ginasial seria de quatro classes e o ensino particular. Padre Palmeira dirigiu a escola paroquial ao longo de duas décadas, auxiliado por João de Deus Melo, José Nivaldo e o professor Manuel Vieira, que foram vice-diretores. A austera professora Hosana Lopes também participou da direção e ministrou aulas naquela unidade durante muito tempo. A Escola Dom Palmeira é um patrimônio histórico. No pas...

Versos da feira

Há algum tempo escrevi sobre os “Gritos da feira”, que podem ser acessadas no link a seguir ( https://historiaesperancense.blogspot.com/2017/10/gritos-da-feira.html ) e que diz respeito aqueles sons que frequentemente escutamos aos sábados. Hoje me deparei com os versos produzidos pelos feirantes, que igualmente me chamou a atenção por sua beleza e criatividade. Ávidos por venderem seus produtos, os comerciantes fazem de um tudo para chamar a tenção dos fregueses. Assim, coletei alguns destes versos que fazem o cancioneiro popular, neste sábado pós-carnaval (09/03) e início de Quaresma: Chega, chega... Bolacha “Suíça” é uma delícia! Ela é boa demais, Não engorda e satisfaz. ....................................................... Olha a verdura, freguesa. É só um real... Boa, enxuta e novinha; Na feira não tem igual. ....................................................... Boldo, cravo, sena... Matruz e alfazema!! ...........................................

As Eleições de 1930

Nos anos 30, do Século passado, o processo eleitoral ainda era regido pela legislação da Primeira República. O Município de Esperança, apesar de emancipado (1925), permanecia vinculado à Comarca de Areia. No entanto, a nossa cidade possuía suas próprias seções eleitorais. A criação da “Zona Eleitoral” só aconteceu a partir da descentralização (1934), após a instalação da própria Justiça que lhe dá nome na Paraíba (1932). As “Turmas Apuradoras” seriam organizadas em número de seis, consoante sessão ordinária do Tribunal de Justiça da Paraíba, publicada n’A União de 13/10/1934. Esperança por essa época, pertenceria à 6ª Zona, compreendendo os municípios de Areia, Esperança e Serraria. As eleições de 1930 em nosso Estado foram marcados pela polarização extrema. O rompimento decisivo de João Pessoa com o Presidente Washington Luís deu origem à Aliança Liberal formada por Minas, Paraíba e Rio Grande do Sul. O candidato liberal (Getúlio Vargas) fez oposição ao governo federal (Júlio Pres...

Esperança: Sítios e Fazendas

Pequena relação dos Sítios e Fazendas do nosso Município. Caso o leitor tenha alguma correção a fazer, por favor utilize a nossa caixa de comentários . Sítios, fazendas e propriedades rurais do município Alto dos Pintos Arara Arara Baixa Verde Barra do Camará Benefício Boa Vista Boa Vista Cabeça Cacimba de Baixo Cacimba de baixo Caeira Cajueiro Caldeirão Caldeiro Caldeiro Campo Formoso Campo Santo Capeba Capeba Carrasco Cinzas Coeiro Covão Cruz Queimada Furnas Granja Korivitu Gravatazinho Jacinto José Lopes Junco Lages Lagoa Comprida Lagoa da Marcela Lagoa de Cinza Lagoa de Pedra Lagoa do Sapo Lagoa dos Cavalos Lagoa Verde Lagoa Verde Lagoinha das Pedras Logradouro Malhada da Serra Manguape Maniçoba Massabielle Meia Pataca Monte Santo Mulatinha Pau Ferro Pedra Pintada Pedrinha D'água Pintado Punaré Quebra Pé Quixaba Riachão Riacho Am...