Pular para o conteúdo principal

Esmola para S. Benedito (conto do vigarista)


Este caso passou-se na Bahia de todos os santos.
O Pichaco de balandrau e sacola na mão batia às portas das casas. Trazia a feição desfigurada, como se pagasse alguma penitência:
- Uma esmola para S. Benedito, dizia ele. E agradecia o sonoro “não” com votos de felicidade que doía n’alma do cristão.
Pedro sabia muito bem do seu ofício. Há muito aprendera a arte da malandragem, já que não era dado ao trabalho como seus irmãos. Quando muito, comparecia na fábrica de sordas de Zé Luiz, mas nunca pôs a mão no balaio de entregas.
Ladeira acima, ladeira abaixo e o saco foi ficando cheio: feijão, arroz, pão... faltava-lhe a carne.
- Uma esmola para S. Benedito, que não lhe falte carne – sugestionou.
- Tome seu moço essas laranjas.
- Obrigado senhora, que não falte carne na sua mesa.
- Ora, o que tu quer dizer com isso?!
- Nada, senhora. É só uma penitência.
- E essa promessa é pra mode comer carne? E santo come carne?
- Olha, estou bem desconfiado... Eu peço em nome dele, ajunto tudo e vou naquela igrejinha deixar as esmolas, mas o santo é muito caridoso e não quer receber. Prá não estragar a mercadoria faço uma caridade a mim mesmo que estou a precisar. Sei que ele não faz questão, pelo menos nunca reclamou.
A senhora botou o mandrião pra correr com aquele impropério. Ele arregaçou o cós da roupa e saiu às gargalhadas.
O propósito talvez nem fosse a arrecadação, pois ele podia muito bem conseguir bem mais com os golpes que aplicava. Ao que parece, afiava suas habilidades de lidar com as pessoas e as situações do cotidiano.
Na farsa inspiradora deste conto, uma jovem ouvia a soma das esmolas pela janela de rótula quando percebeu o malandro a falta da carne; voltando-se para aquela fresta rogou à moça pela esmola que aos desaforos desvendou o ardil.

Rau Ferreira

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A menor capela do mundo fica em Esperança/PB

A Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro está erigida sob um imenso lajedo, denominado pelos indígenas de Araçá ou Araxá, que na língua tupi significa “lugar onde primeiro se avista o sol”. O local em tempos remotos foi morada dos Índios Banabuyés e o Marinheiro Barbosa construiu ali a primeira casa de que se tem notícia no município, ainda no Século XVIII. Diz a história que no final do século passado houve um grande surto de cólera causando uma verdadeira pandemia. Dona Esther (Niná) Rodrigues, esposa do Ex-prefeito Manuel Rodrigues de Oliveira (1925/29), teria feito uma promessa e preconizado o fim daquele mal. Alcançada a graça, fez construir aquele símbolo de religiosidade e devoção. Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Bispo da Paraíba à época, reconheceu a graça e concedeu as bênçãos ao monumento que foi inaugurado pelo Padre José Borges em 1º de janeiro de 1925. A pequena capela está erigida no bairro da Beleza e sua entrada se dá pela Rua Barão do Rio Branco. Nele encont…

Pesquisador do IHGE encontra documento histórico

O pesquisador Ismaell Filipe, sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Esperança - IHGE, encontrou recentemente alguns documentos que datam de 1851, e que fazem alusão à origem do nosso Município. Trata-se de dois registros, para ser mais exato, de casamento, realizados no lugar denominado “Sítio Banabuié”, em casa de Severino de Medeiros Lima, cerimônia realizada pelo vigário José Antunes Brandão, pároco de Alagoa Nova. As buscas ocorreram junto aos arquivos paroquiais do Município de Alagoa Nova e constituem um marco divisório da nossa história. De fato, esta foi a denominação adotada, desde a concessão da Sesmaria de Banaboié e Lagoa de Pedra (1713) e que perdurou até 1870, quando então foi alterado para “Boa Esperança”. Segundo registros Ultramarinos existentes na Torre do Tombo em Portugal, este sítio ficava à beira de um açude, que em nossa opinião seria o reservatório do Araçá. O confrade Gilson Santiago, em conversa informal com o editor deste blog, certa feita, destacou que …

Noite de homenagem à Ramalho

Hoje (20/03) pelas 20 horas na Câmara Municipal irá acontecer uma homenagem ao saudoso José Ramalho da Costa, por ocasião da passagem de seus 100 anos de nascimento. O convite honroso para participar desta noite me veio através de seu filho Antônio Ailson. Aproveitei o ensejo para escrever-lhe um pequeno texto biográfico. Nascido em 21 de março de 1918, filho do casal Antônio Nicolau da Costa e Rita Lacerda da Costa, iniciou no comércio aos 25 anos de idade, no mercado de estivas e cereais, na rua nova, hoje Rua João Pessoa. O forte tino comercial o levou a expandir seu comércio, mudando-se em 1946 para a rua do Sertão, atual Rua Solon de Lucena, e depois para Campina Grande, a cidade “Rainha da Borborema”. Vender e comprar para Ramalho, era como respirar; sabia atender e despachava a freguesia como nenhum outro. O seu balcão era o melhor da cidade – diziam os seus conterrâneos – e todos saíam satisfeitos, e ainda que não encontrassem a mercadoria, acabavam levando outra em seu lugar, a…