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José de Cerqueira Rocha, por Marcos Carvalho


Transitar e desbravar por diferentes realidades é parte do exercício do jornalista, tanto quanto desenvolver as múltiplas habilidades funcionais que essa atividade requer. José de Cerqueira Rocha trilhou esse caminho: como redator, secretário e diretor de jornal impresso na capital paraibana, a chefe de redação e assessor de imprensa no Rio de Janeiro, ele soube recomeçar quando preciso, sem perder de vista as suas raízes.

Filho de Theotônio Cerqueira Rocha e de dona Deodata Torres Rocha, José de Cerqueira Rocha nasceu em 22 de janeiro de 1914, em Pernambuco, mas viveu toda a infância e juventude no município de Esperança, no Agreste paraibano, onde o pai exercia o cargo de adjunto de promotor e comerciante. Após os estudos, ele atuou como professor interino de 1931 a 1933, e, no ano seguinte, transferiu-se para João Pessoa, onde figurou na lista de eleitores já como jornalista.

Segundo o escritor e pesquisador esperancense Rau Ferreira, foi no Jornal A União que José de Cerqueira iniciou sua carreira jornalística, a qual considera meteórica. Em pouco mais de uma década, o profissional passou de redator a secretário do gerente Mardokêo Nacre e, posteriormente, galgou a diretoria do veículo de comunicação, função que ocupou entre fevereiro e outubro de 1946.

O escritor e jornalista Carlos Romero, falecido em 2019, relatou em uma de suas crônicas que, quando começou a trabalhar n’A União, foi conduzido por José de Cerqueira até a sala da revisão, onde aprenderia o ofício de revisor de provas. Também se recordava quando o então secretário da redação, “magro, espigado”, anunciou-lhe que, no dia seguinte, trabalharia na redação, onde segundo ele, estava a nata do jornalismo paraibano. “O secretário do jornal era José de Cerqueira Rocha, muito exigente, mas que escrevia pouco, apesar de colecionar várias canetas. E Silvino [Lopes], certa vez, apontando para o secretário, que escrevia pouco, disse: ‘Por falta de caneta não é’”, escreveu Carlos Romero. As colaborações de Cerqueira em veículos paraibanos incluíram ainda passagens pela revista Fogueiras e Mastros, especializada em assuntos juninos, e pela Manaíra, periódico inspirado no modelo de revistas de variedades, que teve sua primeira tiragem em 1945, mas, três anos depois, passou a ser produzido em Campina Grande.

Segundo relato da historiadora Maria de Fátima Araújo, José de Cerqueira Rocha traduziu, no número 38, “um artigo inteiro do beletrista norte-americano A. O. Dillenbeck, da revista PIC, que falava de um filme da atriz Betty Gable — Pin Up Girl.

Rau Ferreira conta que, motivado por perseguições políticas, José de Cerqueira transferiu-se, em 1947, para o Rio de Janeiro, onde foi recebido pelo então senador paraibano Ruy Carneiro. Na então capital federal, Cerqueira passou a atuar como redator e jornalista no serviço público.

“Na escalada jornalística, José de Cerqueira trabalhou em diversos periódicos cariocas: Última Hora, Diário Carioca, O Dia e a revista Mundo Ilustrado”, elenca Ferreira. “E, por último, no jornal O Globo por mais de 20 anos, chegando a assumir a chefia de redação”.

Na revista semanal O Mundo Ilustrado, escreveu para a sessão fixa chamada Panorama Político, além de produzir reportagens sobre importantes figuras como o então presidente eleito, Juscelino Kubitschek, e seus planos de governo. Na reportagem “Sentença de morte ao petróleo brasileiro”, escrita para o mesmo semanário, Cerqueira abordou o desperdício do “ouro negro”, pondo às claras a guerra da exploração comercial do petróleo nacional: “De um lado, os que defendem a participação de capitais mistos e, de outro, os que têm razão para desconfiar da ajuda de fora. A primeira etapa dessa luta não terminou. Ela continua na imprensa, no rádio e nos auditórios”, introduz o jornalista, que prossegue mostrando como a indústria petrolífera do país vinha sendo “arruinada pela incompetência e antinacionalismo dos seus dirigentes”.

Em 1958, já como repórter de O Globo, participou de uma expedição de jornalistas que percorreram 300 mil quilômetros para analisar as ações do governo na região do Rio São Francisco. Outra iniciativa semelhante da qual participou foi da caravana de jornalistas em visita ao recôncavo baiano para, a convite da Petrobrás, conhecer os campos petrolíferos da região.

Como assessor de imprensa da Secretaria de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, ele contribuiu com projetos como o jornal Novos Rumos, produzido e escrito pelos penitenciários. “São oito páginas escritas pelos detentos, mostrando a vida dentro do presídio, suas reivindicações e ocupações”, noticiava a edição do Jornal do Commercio, de 4 de fevereiro de 1971. Naquele mesmo ano, José de Cerqueira receberia a distinção de honra ao mérito, da Secretaria de Justiça, pelos trabalhos jornalísticos prestados. O nordestino colaborou ainda para a Revista Iphase (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado).

Rau Ferreira destaca o jornalista José de Cerqueira como um dos grandes nomes da cidade de Esperança e o amor pelo lugar onde criou-se ficou expresso na descrição dos primeiros anos de emancipação do município para o Anuário da Paraíba, publicado em 1934, chamando-a de “recanto aprazível”. O escritor e pesquisador cita o lançamento de dois livros pelo jornalista.

João de Cerqueira Rocha foi casado com a professora Emicléia Nóbrega Rocha, com quem teve três filhos: Maria Lúcia, Thereza Cristina e Paulo Eduardo Nóbrega. O jornalista, radicado no Rio de Janeiro, faleceu em 18 de dezembro de 2003, aos 89 anos.

 

Marcos Carvalho

 

* Publicado originalmente no Jornal A União, edição de 10 de novembro de 2024.

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