Pular para o conteúdo principal

Sol, modernista

Quem foi que disse que Silvino Olavo não era modernista? Classificado como poeta parnasiano ou simbolista por alguns, autor de Cysnes (1924) e Sombra Iluminada (1928), o nosso vate também incursionou pelo modernismo e pós-modernismo brasileiro.
Ainda acadêmico no Rio de Janeiro, ouvira falar de uma tal SEMANA DE ARTE MODERNA que eclodiu em 1922. Chegando a publicar no MUNDO LITERÁRIO N° 29 um de seus poemas - segundo esta nova orientação - dedicada “à expressão precursora de Adelino Magalhães”, onde se lê:

Há um tumulto no mundo.
Arde um rescaldo de ambições espúrias
no Mundo.
Brasa, cinza e fumaça –
e o homem moderno passa
como o albatroz atravessando as fúrias!
O homem moderno passa sobre o mundo
com obsessão de todas as vitorias [...]”

Na Parahyba recebe o folclorista e pesquisador Mário de Andrade, que “veio ao Nordeste com o fim de coligir mais documentação para sua obra do folclore musical do Brasil” (A União: 29/01/1929).
Completamente aderindo às idéias modernistas, escreve para a REVISTA DE ANTROPOFAGIA - publicação que tem origem no Manifesto Antropófago escrito por Oswald de Andrade- a sua adesão:

“Estou simpatizando danadamente com a ‘Antropofagia’ de vocês, e cá por essas bandas também pratico o meu credo. (...)
Do professorado que não substitui nos programas o ensino de Camões por um curso completo de Macunaíma faço um sarapaté de arromba e gozo de novo o parati de Caxitú com estalinhas na língua.
Tudo isso me parece matéria mais ou menos subsidiária do programa antropofágico. Não é?”
Ao poeta também se atribui os versos de JOÃO DA RETRETA, exercitando a crônica social pessoense da década de 20. Em sua “Músa Fútil”, declamava sob os novos ventos da poesia nacional:

“Ah! Só ela não passa... As outras passam rindo;
Hilda Netto, Dulce Aragão, Laudicéa,
Lourdes Borges, Nevinha Oliveira – Phrinéia...
Ivete Stukert, Hilda Seixas... Povo lindo!
Branca Siqueira, Odete Gaudêncio, Flaviana Oris,
Bulhões, Renato Azevedo, Juvêncio Lyra, Humberto Pa-
cote, o maestro Bayard, Ida Luna, Peryllo ô, ô, ô que zua-
da!
Silêncio! Anayde Beiriz!!! Puxa que falta de ar! Ana-
lice, Nautília, Elísia, Onélia Lins...
Paraíba - Cidade dos jardins.
Quanta gente sem juízo!
Se isto é inferno ninguém neste inferno se salva.
As vezes penso que isto aqui é um paraíso
E não é bago... Adeus Geny, você já vai? ”

Era ou não uma inteligência multiforme?

Rau Ferreira
Fonte:
- A UNIÃO, Jornal. Edição de 29 de janeiro. Parahyba do Norte: 1929.
- ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. 2 ed. São Paulo: Duas Cidades, 1983
- ANTROPOFAGIA, Revista de. Diário de São Paulo. N° XII, p. 12. Edição de 26 de junho. São Paulo/SP: 1929.
- BOAVENTURA, Maria Eugênia da Gama Alves. A vanguarda antropofágica. Volume 114 de Ensaios (São Paulo). Editora Ática: 1895.
- CHAVES, Eneida Maria. O Mundo literário: um periódico da década de 20 no Rio de Janeiro, Volume 1. Editora Universidade de São Paulo: 1977.
- ERA NOVA, Revista. Parahyba do Norte. Edição de 01 de maio. Imprensa Oficial, 1929.
- JOFFILY, José. Anayde Beiriz: paixão e morte na Revolução de 30. Ed. CBAG Editora: 1980.
- PINTO, Luiz. A influência do Nordeste nas letras brasileiras.Ed. J. Olympio: 1962.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Pedra do Caboclo Bravo

Há quatro quilômetros do município de Algodão de Jandaira, na extrema da cidade de Esperança, encontra-se uma formação rochosa conhecida como “ Pedra ou Furna do Caboclo ” que guarda resquícios de uma civilização extinta. A afloração de laminas de arenito chega a medir 80 metros. E n o seu alto encontra-se uma gruta em formato retangular que tem sido objeto de pesquisas por anos a fio. Para se chegar ao lugar é preciso escalar um espigão de serra de difícil acesso, caminhar pelas escarpas da pedra quase a prumo até o limiar da entrada. A gruta mede aproximadamente 12 metros de largura por quatro de altura e abaixo do seu nível há um segundo pavimento onde se vê um vasto salão forrado por um areal de pequenos grãos claros. A história narra que alguns índios foram acuados por capitães do mato para o local onde haveriam sucumbido de fome e sede. A s várias camadas de areia fina separada por capas mais grossas cobriam ossadas humanas, revelando que ali fora um antigo cemitério dos pr...

A menor capela do mundo fica em Esperança/PB

A Capelinha. Foto: Maria Júlia Oliveira A Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro está erigida sob um imenso lajedo, denominado pelos indígenas de Araçá ou Araxá, que na língua tupi significa " lugar onde primeiro se avista o sol ". O local em tempos remotos foi morada dos Índios Banabuyés e o Marinheiro Barbosa construiu ali a primeira casa de que se tem notícia no município, ainda no Século XVIII. Diz a história que no final do século passado houve um grande surto de cólera causando uma verdadeira pandemia. Dona Esther (Niná) Rodrigues, esposa do Ex-prefeito Manuel Rodrigues de Oliveira (1925/29), teria feito uma promessa e preconizado o fim daquele mal. Alcançada a graça, fez construir aquele símbolo de religiosidade e devoção. Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Bispo da Paraíba à época, reconheceu a graça e concedeu as bênçãos ao monumento que foi inaugurado pelo Padre José Borges em 1º de janeiro de 1925. A pequena capela está erigida no bairro da Bele...

Banabuyé, Capítulo de Romance (Silvino Olavo)

Dentre os materiais que Carlos Bezerra recebeu do cunhado de Silvino – Waldemar Cavalcante – pouco tempo após a morte do poeta, encontra-se um capítulo do romance “Banabuyé”. A documentação foi doada pelo engenheiro ao Grupo de Estudos e Pesquisas do HISTEBR-GT/PB, capitaneado pelo Prof. Charlinton Machado. Escrito na segunda metade do Século XX no período de reclusão, quando esta padecia de crises esquizofrênicas, “ em pleno contexto do ostracismo vivido por Silvino Olavo da Costa, após o retorno definitivo para cidade de Esperança, interior da Paraíba ”, como bem pontuou a equipe de pesquisadores, no trabalho “Silvino Olavo da Costa: Escritos de Solidão e Silêncio”. Irineu Jóffily – em suas “Notas sobre a Parahyba” (1892) – nos diz que Banabuyé foi sempre o nome deste lugar, e assim deveria ter permanecido, por mais auspicioso que fosse “Esperança”. O romance, de certo, A seguir, a reprodução do mencionado capítulo deste romance: “É este governo do povo, constituído pela habi...

Hino da padroeira de Esperança.

O Padre José da Silva Coutinho (Padre Zé) destacou-se como sendo o “ Pai da pobreza ”, em razão de suas obras sociais desenvolvidas na capital paraibana. Mas além de manter o Instituto São José também compunha e cantava. Aprendeu ainda jovem a tocar piano, flauta e violino, e fundou a Orquestra “Regina Pacis”, da qual era regente. Entre as suas diversas composições encontramos o “ Novenário de Nossa Senhora do Carmo ” e o “ Hino de Nossa Senhora do Bom Conselho ”, padroeira de Esperança, cuja letra reproduzimos a seguir. Rau Ferreira HINO DE NOSSA SENHORA DO BOM CONSELHO (Padroeira de Esperança) VIRGEM MÃE DOS CARMELITAS, ESCUTAI DA TERRA O BRADO, DESCEI DE DEUS O PERDÃO, QUE EXTINGUA A DOR DO PECADO. DE ESPERANÇA OS OLHOS TERNOS, FITANDO O CÉU CÔR DE ANIL, PEDEM VIDA, PEDEM GLÓRIA, PARA AS GLÓRIAS DO BRASIL! FLOR DA CANDURA, MÃE DE JESUS, TRAZEI-NOS VIDA, TRAZEI-NOS LUZ; SOIS MÃE BENDITA, DESTE TORRÃO; LUZ DE ESPERANÇA, TERNI CLARÃO. MÃE DO CARMO E BOM CONSELHO, GLÓRIA DA TERRA E DOS...

Zé-Poema

  No último sábado, por volta das 20 horas, folheando um dos livros de José Bezerra Cavalcante (Baú de Lavras: 2009) me veio a inspiração para compor um poema. É simplório como a maioria dos que escrevo, porém cheio de emoção. O sentimento aflora nos meus versos. Peguei a caneta e me pus a compor. De início, seria uma homenagem àquele autor; mas no meio do caminho, foram três os homenageados: Padre Zé Coutinho, o escritor José Bezerra (Geração ’59) e José Américo (Sem me rir, sem chorar). E outros Zés que são uma raridade. Eis o poema que produzi naquela noite. Zé-Poema Há Zé pra todo lado (dizer me convém) Zé de cima, Zé de baixo, Zé do Prado...   Zé de Tica, Zé de Lica Zé de Licinho! Zé, de Pedro e Rita, Zé Coitinho!   Esse foi grande padre Falava mansinho: Uma esmola, esmola Para os meus filhinhos!   Bezerra foi outro Zé Poeta também; Como todo Zé Um entre cem.   Zé da velha geração Dos poetas de 59’ Esse “Z...