Pular para o conteúdo principal

O poeta presente, cordel de Rau Ferreira

À João [Benedito] Viana dos Santos

Nas ruas e praças desta cidade
Cantadores e violeiros de repente
Em sua simplicidade
Declamaram em voz corrente.

Um negro alto e valente
Cheio de lorota e fogosidade
Analfabeto e discrente
Da sua triste realidade:

Vejo a minha mocidade
Comparo o tempo presente
Que grande desigualdade
Que saudade a gente sente.

Ontem fui fogo ardente
Com o vigor da mocidade
Hoje o velho doente
Não encanta mais a sociedade.

Na sua fragilidade
Dominava o impulso da mente
E com tal sagacidade
Deixava a todos contente.

João Viana – de nascente,
João Benedito, de batisdade
Surgiu como o sol poente
Que se enche de luminosidade.

Um precursor indolente
Passou com a velocidade
E outros a sua historicidade
Trouxeram incansavelmente.

Não posso almejar felicidade
Ah! esse mundo está muito diferente
Amparai-me por bondade
Pois o tempo me é conveniente.

Sigo feliz e contente
Ouvindo da juventude a maldade
Vou rimando e fazendo repente
Enquanto não vem a mortandade.

Pois se há duas ambigüidades
- homem e tempo, seu contingente –
Muito mais há fatalidades
Em se viver eternamente.

Enfim não deixou parente
Apesar da sua longevidade
Nem tão pouco descendente
Que lhe desse continuidade.

As regalias sem irmandade
Delas querer gozar somente.
É a mais pura ingenuidade
Pensa o homem erroneamente.

De mãos vazias vem o decadente
E em toda a sua vaidade
Esquece o homem simplesmente
E vazio parte na igualdade.

Viveu portanto à marginalidade
Do seu tempo tão presente
Ganhou em si notoriedade
Dos cantadores e do repente.

A filosofia e a moralidade
Desta figura vivente
Encerramos na verdade
Que este livro lhe consente.

Rau Ferreira

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Esperança sob o golpe do AI-5 (Parte I)

O AI-5 (Ato Institucional nº 5) foi o mais duro golpe da Ditadura no Brasil. Baixado pelo em 13 de dezembro de 1968, impôs uma série de restrições aos direitos individuais, conferindo carta branca para ações arbitrárias do governo. Muitos cidadãos foram perseguidos, presos, cassados, torturados e até mortos em nome do ultranacionalismo. As consequências deste nefasto ato chegaram a nossa pequenina Esperança, onde o Centro Estudantal que funcionava perto do calçadão teve suas portas arrombadas e toda a documentação espalhada pelo chão. De certo que os autores deste delito procuravam alguma prova que pudesse incriminar os estudantes, contudo nada encontraram. Um dos líderes estudantis por presságio ou algum sentido apurado, na manhã daquele dia retirou de lá panfletos e manuscritos que poderiam ser taxados de subversivos pelos militares. À noite quando o crime foi cometido encontraram apenas material escolar sem qualquer implicação. Em nossa cidade foram poucos os que ousaram se opor àque…

Antiga fábrica de caixões

Houve um tempo que não existiam planos pós-morte e que o povo carente se enterrava com a própria rede. Ser conduzido em um ataúde para a morada eterna era um luxo para poucos. Os falecidos eram velados nas próprias residências de um dia para o outro. Servia-se café na cozinha, enquanto que os homens ficavam na sala contando histórias de “trancoso”. O município passou então a dar o artefato, mas dia sim e dia não tinha uma viúva batendo a porta da prefeitura, foi então que alguém resolveu instalar uma fábrica de caixões na rua Theotônio Tertuliano, por trás da Secretaria de Educação. O caixão fúnebre era construído dessas madeiras de caixa de batata, com alguns caibros para dar sustentação. Forrava-se com um plástico fino, de cor azul para homem ou roxo e rosa para mulheres. Na tampa se colocava um vidro para ver o ente querido. Era pequeno e, a depender do defunto, precisava fazer alguns ajustes. A prefeitura também dava a mortalha, que era um camisão, enquanto que as flores ficaram a …

Boato de jornal

A festa da padroeira de Esperança podia ser vista de diversos ângulos: a homenagem que se presta a santa, a celebração de mais um ano com a liturgia do Bom Conselho, o pastoril com suas donzelas e o pavilhão onde se amealhava donativos através do leilão de pratos típicos. Nesse contexto, sempre existiu, o jornalzinho de festa, produzido pelos mais letrados da comunidade, veiculando fofocas, disse-me-disse e outras particularidades da nossa gente. Na vanguarda, temos “A Seta” (1928) de Tancredo Carvalho. Podemos citar, ainda, o “Gillette” (1937) de Sebastião Lima e Paulo Coêlho, que se perpetuou com Zé Coêlho e sua filha Vitória Régia. Pois bem. Nos anos 40 surgiu “O Boato”, com direção de Eleazar Patrício e gerência de João de Andrade Melo, que se denominava “Órgão da Festa de N. S. do Bom Conselho”. Impresso na tipografia S. João, de João Andrade, seu primeiro número circulou em janeiro de 1941, com os quadros: Verdades & Mentiras, Ontem e Flores Bela. Com versinhos, notícias fant…