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Uma Rádio chamado Esperança, por Jacinto Barbosa


O texto a seguir é de autoria do jornalista esperancense Jacinto Barbosa. Nascido em Lagoa de Pedra, zona rural de Esperança, ele era filho de Manuel Nicolau e dona Maria “Zuza”; e casado com Clélia Toscano. Vamos ao texto!

“Uma Rádio chamada Esperança

 

Reportagem publicada em A União no ano de 1987

 

Vinte e cinco anos após a sua emancipação política, a cidade de Esperança, com um pouco mais de 10 mil habitantes, já se ouvia pelas ondas do rádio. Não era uma Tabajara, Caturité ou a Cariri de antigamente, mas chegava aonde queria. Atingia os ouvidos de quem de fato pretendia. E até que incomodou o regime político da época, ao dar informações do Partido Comunista. “A gente recebia jornais tidos como subversivos e lia os artigos e todas as matérias “, lembra Ernani Santos, o pioneiro da radiodifusão esperancense.

Mas essa ousadia lhe custou caro. Uma vez, o Exército de Campina Grande recolheu todos os equipamentos da Rádio Cultura de Esperança, sob a acusação de ser um veículo comunista. Ernani jura que as Forças Armadas estavam enganadas e garante que houve um certo exagero. “A gente fazia uma rádio independente. Eu lia notícias da UDN, do PSB e também do Partido Comunista. Mas o que não agradava aos homens, teria que ser descartado”, recorda. Essa foi uma página negra da radiodifusão de Esperança, mas que não conseguiu matar a sede de comunicação do proprietário.

É tanto que hoje, depois de anos e mais anos fora do ar, Ernani sonha em voltar a usar o microfone e informar e prestar serviço à comunidade. Agora, em outros ares, em outra cidade. Um pouco distante daquela que, pela primeira vez, instalou o Serviço de Alto Falante Voz Livre de Esperança. E que de lá viu seus sonhos sendo carregados nos braços dos homens vestidos de verde-oliva. O silêncio só não foi maior porque, pouco tempo depois, teve seus equipamentos de volta. A rádio renascia, não mais como porta-voz das minorias políticas, mas como um veículo a serviço do povo e ao bem da coletividade.

Areial, um ex-distrito, detém hoje em dia o passe do mestre da radiodifusão esperancense. Não por opção, mas por necessidade. “Eu optei por Areial, porque enveredei pelo ramo do comércio”, lembra. Isso, desde 1982, quando a rádio, de fato e de direito, emudeceu. “Era o fim de um trabalho de mais de trinta anos”, assegurou Ernani. Nesse período, a cidade se deixou embalar pelo melhor da Música Popular Brasileira. Por lá, Dalva de Oliveira fez a festa ao interpretar, quase todos os dias, “Bandeira Branca, Francisco Alves, Orlando Silva, Elizete Cardoso e tantos outros, que detinham cadeiras cativas. Parecia a Rádio Nacional”, exagera. Só que essas estrelas surgiam da cera, rodando sem parar, e em até 78 rotações.

 

AS VOZES DA RADIOFONIA

 

A cidade, em 1952, também tinha poucas ruas. A principal – que até hoje não perdeu a majestade – é a Manoel Rodrigues. Em toda sua extensão, projetores de som foram espalhados a cada 500 metros para levar o melhor da programação de Ernani Santos para a comunidade esperancense. Nos pontos estratégicos da cidade, difusoras potentes, na época, davam as boas-vindas à comunidade. E a voz, inconfundível, era do locutor Pedro Barbosa – o Pedoca, para seus fãs.

Ele sempre foi o faz de tudo na comunicação da cidade. É verdade! Foi o primeiro a integrar o elenco do Serviço de Alto Falante Voz Livre e, também, foi a sensação da ACY 7 a adentrar em todas as casas da cidade, com sua voz grave, ora oferecendo música, ora informando. Até nas publicidades, a voz era dele. Nos velórios, também. E ainda hoje Pedro continua sendo ouvido pelos quatro cantos da cidade.

Discreto e já não tão jovem como antigamente, Pedoca parece que está com a vida que pediu a Deus. Mora quase na zona rural de Esperança, acorda cedo e vai para o trabalho, a pé. Não tem pressa para chegar; muito menos para sair. Mas sai! Agora, ele tem o seu próprio negócio.

E assim como Ernani, seu ex-patrão, Pedro Barbosa está começando de novo na radiodifusão. E como não poderia ser diferente, mantém hoje um serviço de alto falante no Mercado Público. A clientela ainda é pequena, mas já é o suficiente para se manter e levar a vida como sempre quis: se comunicando.

Uma outra cria de Ernani Santos, hoje está completamente afastada do meio. É Cláudia Ana, famosa também pela voz e pela dedicação ao trabalho. Ela e Pedro sustentavam a Rádio. Desde os 14 anos que Ana se integrou à comunicação. No seu tempo, por exemplo, Benito de Paula explodia de tanto sucesso. Evaldo Braga era o ídolo negro. E Ana parecia a porta-voz deles todos os dias. O seu jeito fácil de fazer rádio lhe rendeu outros empregos. Campina Grande foi seu último porto-seguro. Hoje, está casada e o rádio é coisa do passado.

Programas de auditório, talentos revelados e uma saudade que resta. A ousadia ou paixão pelo rádio praticamente consumiu a vida de Ernani Santos. Era só no que ele pensava. Um dia, partiu para o grande desafio como empresário da comunicação: criar um auditório e reunir os artistas da terra. E não deu outra. O local escolhido foi a Rua Epitácio Pessoa, ou Rua do Boi, esquina com a Manoel Cabral. Logo no início, os prêmios eram pequenos brinquedos que mais funcionavam como incentivo.

Em poucos dias, a casa estava cheia. Por lá passaram muita gente que fez da música a razão de suas vidas. Euclides Rodrigues, um violonista nascido em Esperança, é um exemplo dessa época. Pepê e Zé Cabugá, que cantavam músicas românticas, encantavam os ouvintes. Às sextas-feiras, na ACY – 7, amanheciam em festa.

Difícil imaginar, mas em Esperança era assim. Em 1959, a rádio surgia. O governo era o de Pedro Gondim. A rádio estava chegando ao sexto ano quando foi retirada do ar. Um novo tempo e tudo voltava ao normal. Não mais como uma rádio, mas como um serviço de AltoFalante. Nascia aí a Voz Independente de Esperança, criada a imagem e semelhança da Voz Livre, tudo como antigamente.

Ernani Santos, aos poucos, recuperava o seu maior patrimônio e dava adeus ao regime que, segundo ele, tanto perseguia o comunicador. E como Voz Independente, Esperança foi ouvida até 1982. Daí pra frente, o silêncio tomou conta das ruas. Os quase dois mil e quinhentos discos, muitos deles de cera, foram doados e devem estar fazendo a alegria de outras comunidades. “O tempo hoje é outro”, assegura Ernani.

É! Mais de uma coisa todos podem ter certeza: esse novo tempo começa a surgir com todo o vigor na pequenina Areial, através de uma rádio comunitária que já está no ar. Mas para Ernani isso não é tudo, ele quer mais! Quer uma FM. “Quando eu atingir esse objetivo, acho que estarei realizado”, afirma. Enquanto esse sonho não vira realidade, Ernani vai tocando a vida em seu mini-mercado, na rua principal da cidade. Mas a lembrança de Esperança, do auge da radiofonia, não lhe sai da cabeça. “As vezes eu até consigo escutar tudo o que a gente fazia, lá naquela cidade, há cinquenta anos, como se fosse hoje”, recorda.

- Assim, eu vou matando a saudade!

 

Jacinto Barbosa

 

Referências:

- CARNEIRO, Josélio (Org). A União: Escola de Jornalismo. ISBN: 978-85-922930-1-7. A União. João Pessoa/PB: 2018.

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