O
Cantador negro José Virgulino de Souza (1908-1939), ficou mais conhecido com o
nome de José Mergulhão. Dizia ter nascido em “Boa Esperança”, na Paraíba, no
ano de 1908; e faleceu no Ceará vítima de tuberculose, nos idos de 1939.
Assim
consta da Revista do Instituto Histórico de Alagoas:
“José Mergulhão de Sousa, o desventurado
cantador negro que morreu tuberculoso em 1939, com trinta e dois anos de idade.
Ele era de Paraíba, da localidade Boa Esperança e morreu em longínquo município
do Ceará” (R.IHGA: 1947 e 1949).
Este
era o antigo nome do Município de Esperança, citado na Carta de Ferino de Góis
à Romano:
“Cheguei em Boa
Esperança
Encontrei o Campo
Alegre,
Esse me disse: - Seu
mal,
Estou com medo que me
pegue,
Se você já vem
mordido,
Por caridade não
negue...”
Átila
Almeida (ALMEIDA, p. 56) é quem comenta: “Deve ter sido equívoco de Ferino – a
cidade é Esperança/Pb, e não Boa Esperança”. O certo é que esta cidade foi
assim conhecida (Boa Esperança) até pelo menos 1895 (LOCK: 1895).
Mergulhão
parou de cantar em 1937, pois fora diagnosticado com tuberculose. Sendo essa a
única – senão a principal – fonte de renda do poeta, passou por muitas
dificuldades.
A
poesia popular não rendia muito para os seus autores, que dependiam daqueles
desafios nas feiras ou em residências de potentados senhores para se manterem. Nisso,
dois de seus de repentistas, decidiram fazer uma “cantoria filantrópica” para
apoiar o poeta, eram eles Josué da Cruz e Ascendino Alves.
O
Nordeste sentia o impacto do Estado Novo, instituído por Getúlio Vargas, com
forte controle social, enquanto o mundo ouvia os primeiros estampidos da II
Guerra Mundial. Uma nuvem de incertezas pairava sobre a região.
Em
maio de 1939, os cantadores organizaram, na cidade de Campina Grande, o grande
desafio. Mergulhão chegou de automóvel, fazendo o trajeto Juazeiro-Campina, na
companhia de um amigo. Bastante doente, assistiu o poeta a cantoria em sua
homenagem.
Naquela
noite, Ascendino deu-lhe um mote: “Faz pena um poeta bom se acabar na
mocidade”. José Mergulhão, de pronto respondeu:
“Trinta e um anos de
idade
Tenho eu são poucas
eras
Pelo meu estado
físico
Bem vejo que
consideras
Que eu não chegue a
completar
32 primaveras”.
E
Josué entregando-lhe a deixa: “Quem lhe ouviu no passado fica triste agora”,
ouviu de Mergulhão a resposta:
“Quem viu mergulhão
outrora
Vendo hoje não
conhece
Cada repente que faço
É uma dor que aparece
Cada palavra que digo
É uma lágrima que
desce”.
Essa
não foi a primeira, embora talvez tenha sido a última, cantoria de Mergulhão na
Paraíba. Com efeito, numa outra ocasião, reuniram-se na Campina Grande quatro
glosadores ao copo, cada qual com a sua poesia e irreverência: Egídio de
Oliveira Lima (1904/1965), João Benedito Viana (1860/1942), Elízio Félix
“Canhotinho” de Souza (1915/1965) e José Virgulino “Mergulhão” que respondeu em
versos sob o mote de cidadão a brindar a sua cantoria:
“Já fui risonho e
feliz
No tempo da mocidade,
de tudo ria à vontade
Neste meu belo País.
Mas, a sorte
contradiz
E do inditoso ele
ri...
Põe o homem no jequi
Ou mesmo na
desventura.
Hoje é triste
criatura,
Mergulhão no Cariri”.
Declamando
o romance de Alonso e Mariana – também comenta Egídio – que Mergulhão acrescentava
duas sextilhas:
“O
amor é uma coisa
Que
a sorte é quem determina.
Nuns
é firme e bem sincero.
Noutros,
é uma ruína.
Vamos
ver o que se deu
Com
Alonso e com Marina.
Era
Marina uma filha
Dum
potentado barão
Viúvo
há mais de dez anos,
Homem
de mau coração.
Para
ele não existia
Essa
palavra – perdão!
Certo,
porém, é que na derradeira cantoria, disse Mergulhão a Josué “eu quero como
despedida um baião com Ascendino e outro com você”.
Rau
Ferreira
Referências:
- ALMEIDA, Átila
F. (de). SOBRINHO, José Alves. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e
poetas de bancada. Volumes 1-2. Ed. Universitária: 1978.
- LOCK, Charles George Warnford. Economic
Mining: A Practical Handbook for the Miner, The Metallurgist, And The Merchant.
Spon & Chambeerlain. Cortlandt Stret. New York: 1895, p. 586.
- WANDERLEY, Nelza de Araújo. Versos,
viola, sertão – obra completa de Antônio Américo de Medeiros. Edufcg.
Campina Grande/PB: 2021.
- LIMA, Egídio de Oliveira. Os Folhetos
de Cordel. Editora Universitária. UFPB. João Pessoa/PB: 1978, p. 198.
- R.IHGA. Revista do Instituto Histórico
de Alagoas. Volumes 25/26. Oficinas Gráficas da Livraria Machado.
Maceió/AL: 1947, p. 75.
- R.IHGA. Revista do Instituto Histórico
de Alagoas. Volumes 25/26. Oficinas Gráficas da Livraria Machado.
Maceió/AL: 1949, p. 75.
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