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Malassombro, por Epaminondas Câmara

Por Epaminondas Câmara *

 

Epaminondas Câmara – o grande escritor esperancense – reúne em seu livro “Os Alicerces de Campina Grande” (Ed. Caravela: 1999) três contos de sua autoria, que desmistificam muitos mistérios.

Segundo o autor, na maioria das vezes, vultos e assombrações não passam situações cuja verdade fora encoberta por algum outro fato. Nas suas palavras: “é a história real de muitos fantasmas”.

Dividi o texto numa série de dois contos para não cansar o leitor e também porque a linguagem para blogs assim o exige. Assim, iniciemos essa trilogia “epaminodiana” com o texto...

 

Malassombro

 

O diabo naquele tempo era muito trabalhador e muito atrevido. Conta-se que, em certa casa grande, ele passou mais de dois meses em constante atividade. Os moradores recorreram a todos os meios para expulsá-lo, sem resultado. Ouviam a sua rouquenha voz na camarinha, na sala da frente, no copiar, no terreiro de café, no telhado, na casa de farinha.

E, na sua fúria infernal, arrastava a toalha da mesa, apagava as velas do oratório, derrubava as formas cheias d’água, dançava no sótão, jogava pinhão na cozinha, derramava o azeite das candeias, botava manipueira no doce da calda, puxava os travesseiros das camas, escondia a chave das portas, abria o armário e os baús, balançava-se nas redes, atirava bagaço de cana nas crianças, cuspia no livro Missão Abreviada cantava emboladas obscenas, desmanchava as anquinhas dos vestidos, tratava as pessoas com apelidos pejorativos, rimava quartetos humorísticos, latia contra a imagem do Senhor...

A casa ficou em polvorosa. Gastaram água benta, sem resultado. Ó vigário exorcismou várias vezes, o diabo não deu importância. Fizeram novenas a toda classe de santos, e todo esforço foi baldado, O oficio de Nossa Senhora que costumavam rezar no sábado à noite, passou a ser cantado diariamente; foi muito pior, O diabo exasperou-se e ameaçou trazer outros companheiros da região infernal.

Quando não houve mais providências a tomar, satanás declarou -se vencedor mas que ia embora deixando um sinal como lembrança de sua estada em casa. No dia seguinte, apareceu em baixo relevo, desenhada na parede, a largos traços, uma palma de mão. Rasparam o reboco e no outro dia os mesmos traços.

Foi este o sinal de que o povo da casa imaginou. O sinal, porém, era bem diferente. Um mês depois, com surpresa geral, uma afiliada da casa apresentam sintomas de gravidez. O chicote trabalhou e ela descobriu. O tal diabo era primo dela, responsável pelo seu estado, e que havia se foragido para muito longe.

Muitos fantasmas, muitos seres imaginários, tão frequentes na primeira meira metade do século passado, relacionavam-se com a mancebia escondida, disfarçada, A mula de padre e o lobisomem são os mais característicos.

 

Epaminondas Câmara

 

(*) Pesquisador e escritor, nascido em Esperança (1900), radicado em Campina, onde trabalhou como contador e atuou como jornalista e cronista. Publicou as seguintes obras: “Os Alicerces de Campina Grande” (1943), “Datas Campinenses” (1947). Preparava o terceiro livro (Pequena Enciclopédia Brasileiro para uso dos católicos) quando a morte o encontrou (1958).

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