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Não foi para isso que aprendi francês e música

 


Excerto do romance “Eu e Elas” de Júlia Lopes de Almeida em que cita o nosso poeta João Benedito. Por óbvio que o fato aqui mencionado é apenas uma alegoria literária, no entanto devido a sua importância, trago ao conhecimento dos nossos leitores:

Não foi para isso que aprendi francês e música.

Música eu sei e até muito melhor do que ele – que só de solfejo tive dois anos – e entretanto, outro dia, quando eu disse na sala que João Benedito é um êmulo de Wagner, meu marido sussurrou-me ao ouvido rapidamente:

- Não digas asneiras; o João Benedito não é compositor! – Como se também não fosse um grande pianista! Terá ele ciúmes do João Benedito? Quem sabe?... Só o ciúme explicaria alguns dos seus atos, com o não gostar, quando se vê coagido a levar-me a certos banquetes, que eu fique perto de pessoas de mais consideração. Pensará ele, porventura, que eu não tivesse percebido que, sexta-feira, no jantar do Souza, ele tanto andou e tanto fez que mudou o cartão o meu nome para junto do talher do conselheiro Braga, que é surdo como uma porta? Compreendi-lhe a manobra num relance e durante todo o tempo que estivéssemos à mesa, descanso e feliz, comeu como um nababo!”

A própria autora apresenta, em nota de rodapé, os traços biográficos do poeta: “João Benedito Viana (1860-1942) cantador popular e repentista, nascido na Paraíba”.

Com efeito, João Benedito (1860-1943) era respeitado por sua habilidade de criar versos filosóficos e irreverentes. Dizia-se que tinha “boa memória e peito fino”, enaltecendo a sua cantoria.

Vicente Salles, quanto escreve sobre o Maestro Gama Malcher, cita esta sextilha a seguinte sextilha:

O homem pensa que veio

Pr’aqui gozar regalias

Mas ele está enganado

Veio só pra passar uns dias

Quando chegou, nada trouxe

Volta com as mãos vazias”.

Os seus versos ainda ecoam nas feiras livres de Esperança, em conversas de botequim e nas palavras saudosistas de alguns esperancenses que o conheceram e reverenciam o seu nome como um dos mais importantes poetas populares da Paraíba.

 

Rau Ferreira

 

Referência:

- ALMEIDA, Júlia Lopes (de). Eles e Elas. Livro digital: 9786599318559, 659931855X. Janela Amarela Editora: 2021.

- ALMEIDA, Júlia Lopes (de). Eles e Elas. 2ª Ed. Francisco Alves & Cia. Rio de Janeiro-RJ: 1910.

- SALLES, Vicente. Mastro Gama Malcher: a figura humana e artista do compositor paraense. ISBN 9788524702891, 8524702893. Secult: 2005.

Comentários

  1. É comum a mania de supervalorizar o de fora e subvalorizar a "prata" de casa. Neste caso, tanto um quanto outro é ouro de valor inestimável. Mas o nosso metal precisa do polimento que poucos ousam fazer. Parabéns, amigo Ferreiro, digo, Ferreira!

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