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Dona Regina: um centenário de vida e história

A história que vamos contar teve início em 1912...
Dona Regina
Alguns acontecimentos importantes marcaram aquele ano: o mundo ficou chocado com o acidente envolvendo o navio Titanic; o Brasil passava por uma guerra civil comandada pelo Presidente Hermes da Fonseca; nasceu o escritor Jorge Amado; o Santos Futebol Clube foi fundado; e a Paraíba tinha como governador Castro Pinto.
No mesmo ano, no dia 12 de dezembro, no sítio Meia Pataca, que na época pertencia ao município de Areia, nascia a menina Regina Monteiro de Melo, a primogênita de um total de oito filhos do casal de agricultores Virgínio Monteiro de Melo e Aurora Monteiro de Melo. Depois dela nasceram Benjamim, Joca, Severino, Pedro, Tota – já falecidos - Maria, hoje com 94 anos e Sebastião, com 93.
Após a morte de sua mãe e o novo casamento de seu pai, a família de Regina ganhou mais quatro irmãos: Marliene, Marliete, Juscelino e Roberto, que era o caçula dos irmãos e já faleceu.
Durante a adolescência, Regina, na condição de filha mais velha, se dedicava aos trabalhos domésticos, ao cultivo e colheita da lavoura, além de cuidar dos irmãos.
Aos vinte anos de idade ficou encantada por um moço de olhos azuis. Foi amor à primeira vista! Porém, antes de começar a namorá-lo ela teve que romper o namoro que tinha com outro rapaz, contando, para isso, com a ajuda de um de seus irmãos. Numa tarde de domingo, assim que seu namorado chegou na casa dos pais dela, ao desapear do cavalo, foi surpreendido com a moça Regina cantando-lhe uma moda ao som do violão de seu irmão Pedro. Dessa música, Regina nunca se esqueceu e canta até hoje com a companhia do som de violão de seus filhos João e Sebastião.
Um dos trechos da cantiga declarava:

Deixei de te amar, estou contente, porque tenho um novo amante em teu lugar, que é mais formoso e carinhoso para mim... as cartas e a aliança eu te entrego – é porque eu quero te abandonar – agora mesmo que estou amando a outro, que é mais formoso e carinhoso para mim – é mesmo assim, é mesmo assim para mim”.

Com o fim do namoro e após devolver o anel de compromisso embrulhado num pedaço de papel, aquela moça bonita e cobiçada pelos rapazes da região só tinha pensamentos para o moço dos olhos azuis.
Aos 23 anos de idade, após 3 anos de namoro, a bela Regina se casa com o grande amor de sua vida: Cícero Vaz de Souto, um moço lustroso, um ano mais novo do que ela e filho único de um pecuarista da região do Curimataú.
Após o casamento, Regina passa a se chamar Regina Monteiro de Souto. Ela deixa o brejo e vai morar com o marido no sítio Cabeço, na divisa hoje dos municípios de Esperança, Pocinhos e Remígio. Lá, o casal teve seis filhos: Zefinha, Manoel, João, Antônio, Rita e Sebastião.
A vida era de abundância até o início de períodos de longa estiagem. Um desses períodos foi entre 1934 e 1939, que não choveu na região e grande parte do rebanho foi dizimado. Em compensação, em 1940 voltou a chover, havendo muita fartura e se reconstruindo parte dos bens da família. E assim, a vida da família continuou com períodos intercalados de escassez e fartura, até que os filhos cresceram e tomaram seus destinos.
A lembrança que se tem é de uma filha, esposa, mãe e avó vocacionada. Depois de casada, mesmo morando distante, nunca deixou de visitar os seus pais em Meia Pataca – e o marido Cícero ou Cisso, como ela costumava chama-lo, era quem preparava os arreios do cavalo para que ela pudesse fazer a viagem.
Além de cuidar da casa e dos filhos, ela tinha uma especialidade: pelas suas mãos, eram produzidos diariamente dezenas de queijos. Sua fama logo se espalhou na região.
Na época da safra do umbu Regina saia cedo de casa, antes que os animais invadissem os umbuzeiros, para apanhar os melhores frutos, que depois eram lavados e guardados em caçuás e grandes vasilhas para servir aos visitantes. O fruto que ela mais gostava era tirado do pé de umbu da Moça, nome dado ao umbuzeiro, que por conter os frutos mais doces, tinha a preferência das moças do brejo.
Quem não se lembra das festas religiosas que eram feitas na casa grande da fazenda para familiares e amigos; Da queima de flores no mês de maio; Do natal em família rezado pela nora Edleuza; Das procissões que eram feitas para agradecer a Deus pelas chuvas depois de longos períodos de estiagem...
Quem não se lembra da casa grande com os terreiros bem varridos. Pois é... dona Regina acordava cedo, colhia no mato a malva com que fazia as vassouras e em poucas horas estava tudo limpo...
Quem não se lembra das horas de descanso na casa grande do sítio Cabeço. Todos os dias, quando o relógio da sala, estilo Luiz Quinze, soava meio-dia, chegavam para lhe visitar os filhos Antônio, que morava na casa mais próxima e Manoel, que morava mais afastado. Ali, as redes já estavam preparadas no galpão ao lado. Eram momentos também para recordar o passado e colocar os assuntos em dia.
À noite, os filhos Sebastião, recém-casado, Antônio e Manoel, com suas famílias se juntavam para tomar o café forte que ela mesma fazia no pilão. Para completar o grupo sempre aparecia algum vizinho e a prosa seguia noite adentro. Conversa vai, conversa vem, dona Regina sempre comentava do desejo de ter os filhos morando mais próximos a ela. João, na época morava no Rio de Janeiro; Zefinha, no Ceará; Ritinha sempre morou em Lagoa do Mato. Anos depois o sonho dela foi realizado com o retorno de seus filhos, com exceção de Sebastião, que ainda reside em São Paulo e Manoel, que há onze meses reside em Porto Velho.
Regina Monteiro de Souto – essa podemos chamar de pequena grande mulher. Pequena na estatura, mas gigante na vida. Junto com o marido, superou todo tipo de dificuldade: criou e educou seis filhos numa época em que tudo era mais difícil. Com a lição de casa, todos aprenderam a lutar pela vida de forma honesta e digna, casaram-se divinamente bem e hoje têm suas famílias, todas estabilizadas.
Aos 88 anos de idade, ainda morando na roça, Dona Regina perdeu Cícero - aquele com quem durante 65 anos foi a sua maior companhia, que na alegria e na tristeza lhe amou e respeitou. Com quem teve uma união inabalável!
Sem a companhia de Seu Cícero ela foi morar com o filho Manoel e a nora Maria, que logo se mudaram do sítio e vieram morar na cidade. Anos depois ela foi morar na casa da filha Zefinha, onde se encontra até os dias de hoje.
Há pouco mais de um ano ficou muito doente, mas graças a Deus, a sua fé e o espírito de mulher forte fizeram superar a doença, e para a alegria da família e dos amigos, hoje está chegando aos 100 anos de idade !!!
PARABÉNS, Dona Regina !!!
Esta é uma homenagem de seus 6 filhos, 23 netos, 19 bisnetos, dos seus irmãos, cunhadas, sobrinhos, primos, noras e genro, afilhados, compadres e amigos.

Carta enviada pelo seu neto
Marinaldo Vaz
Servidor Público Federal

Porto Velho/RO

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