A trajetória de João Viana dos Santos (1860 - 1943) constitui um dos capítulos mais expressivos da poesia popular nordestina. Conhecido pelo pseudônimo de João Benedito, este cantador era respeitado pela sua habilidade de criar versos e seu jeito irreverente.
Nasceu
escravo, na antiga vila de Banabuyé (atual Município de Esperança), porém foi
alforriado por seu senhor que lhe ensinou a ler. Dizia-se ter boa memória e
“peito fino” e glosava abertamente.
O
historiador e folclorista Luiz da Câmara Cascudo cita-o em seu livro (CASCUDO:
1939, p. 153) e reproduz um desafio que o poeta popular manteve com Antônio Correia
Bastos.
José
Alves Sobrinho reforça sua importância regional, colocando-o
entre os grandes cantadores do brejo paraibano, ao lado de Antônio Ferreira da
Cruz e Romano Elias da Paz.
O
Dicionário Literário da Paraíba (SANTOS: 1994) registra que ele cantou
com figuras como Zé Duda, Antônio Lamparina Cabeceira, Claudino Pimenteiro,
João Melchíades e Josué da Cruz.
Sua
atuação atravessou o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, sendo
lembrado como um dos mais temíveis e habilidosos repentistas de sua época. Ele
começou a cantar em quadra ou como afirmava: “em [um tepo] que não se cantava
em sextilha”.
Orlando
Tejo (TEJO: 1997) registra que José Limeira, ao comentar a ausência de seus
folhetos nos jornais, afirmou: “Um dia os filósofo bota eu no livro, por
modo já botar o João Benedito, Pinto do Monteiro, Louro Batista…”
O
Cantador é descrito como um homem de presença marcante. Respeitado, se fazia
acompanhar de sua viola guardada num saco. Trabalhava nas feiras livres e
residia na Rua do Boi, em Esperança.
Não
se tem muita coisa escrita de sua produção, mesmo porque a maioria dos
estudiosos afirmam que ele era cantador, de onde se supõe que os versos eram
feitos de improviso ou de “repente”, como se diz no Nordeste.
No
entanto, os autores destacam a profundidade filosófica de seus versos. A famosa
sextilha sobre o tempo, citada por Coutinho Filho (FILHO: 1937), tornou-se uma
de suas marcas:
“Há entre O homem
e o tempo
contradições bem
fatais,
O homem não faz,
mas diz,
O tempo não diz
mas faz,
O homem não traz
nem leva,
Mas o tempo leva e
traz”.
Mesmo
na velhice, continuava compondo. Aos 80 anos, versejou:
“Eis o resto da
figura
Do velho João
Benedito
Fui gordo
igualmente uma bola
Estou magro como
um palito
Hoje é quem canta
mais feio
Foi quem cantou
mais bonito!”
O
verbete do Dicionário Literário da Paraíba (SANTOS: 1994) também
preserva uma glosa composta já próximo da morte, na qual ele reflete sobre a
finitude e a saudade:
“Quem foi João
Benedito,
A glória dos
cantadores!
Mas o autor dos
Autores
Vai levá-lo ao
infinito;
Velho, doente e
aflito
Assim não convém
viver;
Sou obrigado a
dizer
Tenho bastante
saudade
Mesmo assim na
minha idade
Faz pena um canto
morrer…”
Entre
os versos resgatados, destacam-se quadras que revelam sua consciência artística
e sua identidade como cantador:
“Sou João
conhecido,
A cantoria é quem
me faz;
Benedito
destemido,
Homem de guerra e
de paz.”
E
ainda:
“A viola é meu
jazigo,
O tempo é quem me
traz;
A poesia anda
comigo,
Só ela me
satisfaz.”
Esses
versos reforçam a imagem de um poeta que via na cantoria não apenas um ofício,
mas uma forma de existir.
Sua
presença também aparece na literatura de ficção: Júlia Lopes de Almeida
(ALMEIDA: 2001) o menciona em Eles e Elas, e Ariano Suassuna teria se
inspirado em um “negro João Benedito” para compor personagens.
Com
as poucas letras que aprendeu montou e manteve escolas em Cuité e Barra
de Santa Rosa, onde ensinava a “desemburrar menino”, como registram seus
contemporâneos.
José
Clementino de Souto (1936-2011) frequentava as “aulas de cantoria” e disse
ter conhecido o cantador na cidade de Cuité, e levou “esta novidade ao
conhecimento de Manoel Cabeceira”. Manoel (1845-1914) “rimava com
espantosa facilidade. [...] era um verdadeiro gênio da poesia popular”,
na opinião de Chagas Batista (1882-1930).
Esse
mesmo garoto, o Clementino, quando se firmou no repente, após fugir de
casa levando uma viola nas costas, adotou o nome de “José Alves
Sobrinho”! Ele afirmava ter recebido grandes lições do poeta esperancense.
Certa
feita, cantando com Manoel Serrador (1906-1996) que, envaidecido, se gabava de
seu traje, versejou Benedito:
“Serrador
é orgulhoso
Só
fala em lordesa e briga
O
que eu disse a Josué
Hoje
é mister que lhe diga
O
hábito não faz o monge
Gravata
não é cantiga”.
Benedito
numa cantoria com Josué da Cruz (1904-1968), tratando das classes sociais,
rimou:
“Vejo
o mundo dividido
Entre
plebeu e nobre,
Um
é preto e outro é branco,
Um
rico e outro é pobre
Deus
é Senhor de tudo:
E
o céu a todos cobre”.
Sobre
o colega cantador, confessou o afamado Josué Alves da Cruz (1904-1968):
“O
Viana de Esperança
Eu
ouço desde menino
Tem
memória e peito fino,
Canta
e glosa abertamente!
Faz
gosto ouvir-se o repente
Do
cantador nordestino!”.
Numa
missão de Frei Damião, estando os dois cantadores em desafio, pediram-lhe para
parar, foi quando João Benedito pegando a deixa improvisou:
“Qual
Damião e qual nada
Eu
não creio em Damião
Pois
homem em carne humana
Não
pode dar salvação
Mesmo
não é só na Igreja
Que
se faz religião”.
No
verbete do Dicionáro Literário da Paraíba (SANTOS: 1994) há ainda o
testemunho de João Pichaco afirmando que, já perto do seu fim João [Benedito]
Viana compôs esta glosa em décima:
“Quem
foi João Benedito
A
glória dos cantadores!
Mas
o Autor dos Autores
Vai
levá-lo ao infinito;
Velho,
doente e aflito
Assim
não convém viver;
Sou
obrigado a dizer
Tenho
bastante saudade
Mesmo
assim na minha idade
Faz
pena um cantor morrer”.
Ele
cantou por toda a Paraíba, vivendo da cantoria com a qual garantia o sustento
da esposa e da filha Eulália. Porém, no final da vida, passou por muitas
dificuldades, como me relatou Saro Amâncio, o jovem que o acompanhou não só nas
cantorias, mas nos últimos dias. Mesmo em idade avançada, ainda fazia suas
rimas e brincava com a própria condição.
Rau
Ferreira
Referências:
- ABREU, Márcia. História
de Cordéis e Folhetos. 2ª Reimpressão. Mercado das Letras. Campinas-SP:
2006.
- ALMEIDA, Júlia
Lopes (de). Eles e Elas. Livro digital: 9786599318559, 659931855X.
Janela Amarela Editora: 2021.
- FERREIRA, Rau. João
Benedito: o mestre da cantoria (um conto de repente). 2ª Edição. Edições
Banabuyé. Esperança/PB: 2017.
- LUYTEN, Joseph
Maria. A literatura de cordel em São Paulo: saudosismo e agressividade.
Volume 23 de Série Comunicação. Edições Loyola, 1981
- SOBRINHO, José
Alves. Cantadores com quem cantei. Ed. Bagagem. Campina Grande/PB:
2009.
- SOBRINHO, José
Alves. Cantadores, Repentistas e Poetas Populares. Bagagem. Campina
Grande/PB: 2003.
- ALMEIDA, Átila
Augusto F. de; SOBRINHO, José Alves. Dicionário Bio-Bibliográfico de
repentistas e poetas de bancada. v. 1–2. Campina Grande: Ed. Universitária,
1978.
- CASCUDO, Luís da
Câmara. Vaqueiros e Cantadores. São Paulo: Global Editora, 2005.
- COUTINHO FILHO,
F. Violas e repentes: repentes populares, em prosa e verso; pesquisas
folclóricas no Nordeste brasileiro. 2. ed. Belo Horizonte: Editora Leitura,
1972.
- TEJO, Orlando. José
Limeira: o poeta do absurdo. Cia. Pacífica. Recife/PE: 1997.
Comentários
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentário! A sua participação é muito importante para a construção de nossa história.