Por Epaminondas Câmara *
Dando continuidade à série de contos de Epaminondas Câmara, extraída do seu
livro “Os Alicerces de Campina Grande” (Ed. Caravela: 1999) com o seguinte texto...
O Lobisomem
A mentalidade popular absorve-se de imaginações confusas e de
fantasmagorias horripilantes.
A mula de padre era a consequência, segundo diziam, de amores ilícitos.
Toda concubina de pai se transformava numa burra, para correr durante certas
horas da madrugada. A pobre Rameira, depois da meia noite, metamorfoseava-se no
animal e carregando argolas, chocalhos, guizos» peças de couro, noiva e ginete,
desembestava pelas estradas afora até percorrer sete províncias (localidades)
Houve quem as visse pelas ruas de Campina, vindo, talvez, dalguma povoação
vizinha.
Diziam que o lobisomem tinha pés de quenga, roupa escura talar, forma símio-humana,
capacidade de percurso meia légua em cinco minutos, corpo intangível etc.
Quando se faiava no seu aparecimento em certo local, ninguém tinha coragem
de sair de casa à noite, O finório dispunha, desta maneira, dum percurso livre
de indiscreções, para sua ronda amorosa. Durante muito tempo a sua fama
preocupou a gente das fazendas, das povoações, da Vila. Mas, como tudo se
descobre, um pouco a esfinge perdeu algo de mistério, porque o enigma se foi
desvendando,
Em volta de certa casa de fazenda, rondava já há algum tempo um desses
monstros. Tão terrível, tão esquisito que assombrava o tour do curral e os
cachorros do terreiro. Numa tarde, debaixo da aroeira, próxima ao curral t
arrancharam-se uns almocreves- Armaram as redes nos galhos da árvore e, durante
a noite, enquanto um dormitório, outros vigiavam os animais recebendo ladrões de
cavalo. Depois que o galo amiudou, um vulto se aproxima da aroeira
cautelosamente, afim de galgar a cerca de pau a pique e abeirar-se dos fundos
da casa. Sem esperar, porém, por tão desconfortável surpresa, ele tropeça nos
garajaus de rapadura dos almocreves. Estes se alarmaram, ele correu e os
tropeiros correram atrás, supondo que fosse um ladrão. Preso, apliquem-lhe uma
boa surra com o arrocho das cangalhas e ele descobriu os fins de sua aventura.
Urna mulata nova e bonita da casa o atraia. Verifiquei que o temerário tinha os
pés metidos em cascos de peba, usava capote preto e capuz, faca de ponta,
clavinote, um chocalho, uma correia tilintante de guizos e um búzio. Conduzido à
presença do dono da casa, no dia seguinte, o pobre do rapaz, amarrado, apesar
de branco e "metido a sebo", casou-se com a caboclinha.
Esta é que é a história real de muitos fantasmas.
Epaminondas Câmara
(*) Eliomar
é Engenheiro Elétrico, graduado pela Escola Politécnica (1974), com
especialidade em Distribuição de Energia pela UFPE (1977), ex-professor do
Assta e Estadual da Prata (1973/74), além de autor do livro “Família Rodrigues
e Lima – minha história” (Ideia: 2016).
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