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O destino de um poeta

 

Oscar de Castro

Por esses dias deparei-me com uma produção textual de Oscar Oliveira Castro, consagrado médico, natural de Bananeiras, nesse Estado da Paraíba. Presidiu a Academia Paraibana de Letras e também fundador da Cadeira nº 02 daquela Casa, hoje ocupada pela professora Maria do Socorro Silva Aragão.

Foi uma coincidência enorme encontrar no Volume 4, do ano de 1948 na revista da APL, após algumas buscas na web, com o título: “Destino de um poeta”. A cópia veio-me pelas mãos benfazejas de Cícero Caldas Neto, este colega que acumula a presidência do Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica (triênio 2024/2027) com a instalação do Instituto Histórico de Guarabira.

De pronto chamou-me a atenção a poesia “O meu palhaço”. Não duvidei. Era de Silvino Olavo quem Oscar discorria em sua espetacular crônica.

Há muito conhecera o poeta esperancense. Fizeram o secundário juntos e participaram do jornal “A Arcádia” do Colégio Pio X. Nessa escola atuaram em pelo menos duas peças: “Os órfãos de Monfort”, drama em três atos, e na comédia “Barbeiro em apuros”:

“Éramos colegas de turma; estudávamos na mesma casa onde pontificavam o Conde Afonso Celso, Pontes de Miranda e outros mestres de nomeada”, afirma Oscar.

De fato, antes de trilhar a carreira na medicina, bacharelou-se o ex-presidente da APL em Direito pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais (atual UFJ). Silvino foi o orador da turma, com a tese “Estética e Socialização do Direito”.

Na Capital do então império do Brasil (Rio de Janeiro) residia Oscar na Pensão Schiray; enquanto Olavo se hospedava. Na “pensão de Dona Nenem, na rua Senador Dantas”. Viam-se com frequência, pois Olavo costumava visitar no Schiray o deputado Simeão Leal, o “cônsul dos paraibanos”, que a todos amparava e distribuía cuidados.

Caminhava Oscar, depois do jantar, sem planos quando divisou, pouco a frente, “no meio da população que ia e vinha, um velho amigo”. O encontro aconteceu no Catete, na mesma rua da universidade. Olavo convidou-o para um café “na esquina, da Silveira Martins”. É Oscar quem nos passa a impressão:

“Café de segunda classe. Meio sórdido. Lá no fundo, alguns bilhares rodeados de caras de gente de segunda. Ambiente de fumo. Pontas de charutos pelo chão.”

Silvino fora cursar Direito no Rio. Para se manter trabalhava nos Correios e revisava jornais do Rio. Fazia-o para completar a sua renda.

O café foi às presas. “Ele estava interessado em andar um pouco. Jantara muito. Queria fazer a digestão”, escreve Oscar. Saíram em busca do Lago do Machado.

Contou-lhe o Olavo dos seus amores com uma gaúcha alta, esguia, de olhos verdes de nome Ofélia. “Era terrível aquela mulher”, assim julgara o amigo.

Nisto dá Oscar a sua impressão sobre o amigo de caminhada:

“Ignorava que aquele esquisitão tivesse virado poeta. Jovem, forte, de uma alegria sadia e contínua, tudo poderia ser, no meu modo de ver, menos poeta”.

Na rua recitara alguns versos, que o Oscar repisa em suas memórias:

É bem melhor o amor que não demora;

Que chega e pede e brilha e se evapora

No fogo-fátuo do deslumbramento”.

Não parecia. Porém, a vida reservou-lhe aquele destino. Ao final de seu bacharelado (1924) publicara o seu primeiro livro de versos: "Cysnes. Foi aclamado pela crítica nacional. Dedicara um exemplar à Oscar: “fraterno na amizade e no sonho”.

Ao chegar ao Largo do Machado, alguém esperava Silvino na Pensão Caxias. Oscar o aguardara no Café Lamas. De longe, pode ver que era uma mulher morena, “bem morena, alta”. Ao retornar, contou-lhe Olavo um segredo, que o não quis revelar no seu texto o doutor Oscar: “Coisa muito séria e grave. É melhor que permaneça o segredo”.

Pediram, então, dois pequenos. Terminado o café, tirou Silvino do bolso a sua recente poesia, manuscrita: “Olhos convalescentes”. E conversaram. Coisas da aprendizagem, “colegas, pontos, faltas”.

Pegaram o bonde das Laranjeiras... seguiu-se a conversa. Silvino despediu-se “quase de chofre”, saltou antes de chegar à cidade, “como quem viu alguém a quem procurava falar”.

Em sua crônica, escreve o Oscar que os anos se passaram, caindo silêncio sufocante de suas notícias; até que soube de sua internação. Foi encontra-lo no “manicômio (...) magro, descorado, ora brando, ora excitado”. Passou a visitar lhe: “Recebo os seus abraços. Levo-lhe cigarros. (...). Ri, dá longas risadas, (....) fala de Ofélia”.

Como foi triste o destino de um poeta.

 

Rau Ferreira

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