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Rotina na Escola Paroquial, por Júlio César

Por Júlio César (*)

Quando cheguei para residir poucos anos em Esperança, meus país trataram de matricular minha irmã e eu, em alguma escola da cidade. A princípio a proposta era colocar em alguma escola particular, mas, eles acabaram recebendo orientação dos novos vizinhos que afirmavam que a melhor instituição de ensino esperancense era a Escola Paroquial Nossa Senhora Auxiliadora, uma escola que eu não sabia se era municipal ou apenas pertencia à diocese, já que sua administração era praticamente formada por freiras.
Havia um rigor na escola imposto pelas irmãs, a primeira delas era com relação ao uniforme que não podia fugir do padrão de camisa social branca com o escudo da escola no bolso, calça social azul marinho escuro quase em tom preto e meias brancas. Era permitido sapato e os tênis Conga ou Kichut, mas, jamais chinelos ou sandálias abertas, no caso das meninas, ou a novíssima calça jeans que começava a ser tornar mais popular.
No caso das meninas, a saia tinha que ser pinçada e as meias longas até a base do joelho. Nesta época, embora tempo depois tenha ocorrido um relaxamento das regras, era comum os alunos ficarem perfilados por turmas em frente a escola, na atual praça da Cultura. Do alto, nos batentes, ficavam as irmãs e alguns professores para nos recepcionar. As turmas entravam sem alvoroço nem empurra-empurra e às vezes os professores vinham buscá-las até a sala de aula. Havia um dia da semana, se não me engano, sextas-feiras, que antes de entramos na escola, tínhamos que cantar o hino nacional brasileiro, sexta-feira também era o dia que saiamos mais cedo para casa.
Até hoje agradeço a escola paroquial o sentindo cívico que tenho, pois, aprendi a cantar o hino nacional de maneira que até hoje não esqueço uma só estrofe. Lembro-me que na semana da pátria essa conduta disciplinar era mais extensa, pois, além do hino nacional cantávamos o hino da independência, o hino da Paraíba e encerrávamos cantando o “salve, salve cidade de Esperança, tu és linda como a flor da primavera...” No mês de novembro tinha um dia para cantar o hino da república “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, nas lutas, nas tempestades, dá que ouçemos tua voz...” só para se ter uma idéia do quanto o ensino era prioritário. Após entram na escola e antes de irmos para a sala de aula, tínhamos que realizar uma oração à Nossa Senhora Auxiliadora, numa imagem que tinha no pátio da escola, ou, caso não, as aulas só tinham inicio após a Ave Maria e um Pai Nosso. Na parede das salas, logo acima do quadro negro havia um crucifixo para reafirmar que se tratava de um estabelecimento de ensino religioso. Não se podia chegar sem dar um bom dia ao professor e nem sair sem deixar um obrigado pela aula.
A mesma professora ensinava tudo, tinha dia que ela ensinava português e matemática, e em outro dia era artes e ciência. Lembro-me de uma bem rigorosa que peguei e que se chamava Fátima. Nossa, ruim em matemática como eu era, penava demais nas mãos dela e da tabuada. Existia uma preocupação grande com a leitura, lembro-me que tínhamos aulas somente disto, onde líamos um livro ou parte dele e depois respondíamos algo sobre o que tínhamos lido. Também havia aulas de caligrafia e ditado de palavras, isso era praticamente constante ao termino das aulas de português.
Havia um alarme sonoro para indicar o recreio, só não lembro se era uma sirene ou sino. Mas, o tempo de recreio não parecia ser longo. A escola também oferecia uma vez por ano tratamento dentário, para mim era um trauma, pois o médico um senhor chamado Fernando ou Fernandes sempre me parecia ameaçador com aquelas máquinas e instrumentos.
         Creio que tínhamos aulas de canto, pois, às vezes, encerrávamos as aulas cantando alguma canção religiosa, geralmente canções de padre Zezinho, o jovem Galileu e Maria de Nazaré, eram talvez uma das mais cantadas. Por volta de 1985 ou 86, esse rigor começou a mudar e muita coisa deixou de ser executada, não havia mais necessidade de perfilar turmas fora e etc. Talvez a mais crucial mudança que percebemos foi a não obrigatoriedade de cantar o hino nacional como antes. Talvez um reflexo da abertura política que o país estava começando a vivenciar após a repressão militar. O que sei, é que meus pais não erraram ao me colocar naquela escola e se hoje digo bom dia, ou me orgulho de ouvir o hino nacional, só tenho a agradecer ao ensino conduzido por freiras e professores que amavam o que faziam e principalmente aquela escola.

Por Júlio César (*)


(*) Cartunista e pesquisador, atualmente desenvolve um projeto que finalizará em 2014 com a publicação de um livro sobre o futebol paraibano.

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