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Antônio Silvino em Esperança (Parte VI)


Antônio Silvino
Antônio Silvino (1875-1944) para muitos foi um “bandido social”, pois respeitava moças e crianças e fazia pequena distribuição de renda após cada saque na própria localidade, angariando assim o respeito popular.
Evitando entrar no território pernambucano, afligiu a Paraíba e o Rio Grande, especialmente nos anos de 1901 a 1910. Foi neste período que muitas vezes compareceu a vila de Esperança para fazer “arrecadação”, sendo atendido pelos comerciantes que temiam um mal maior.
O cancioneiro popular, na voz de Antônio Téodoro dos Santos, narra a façanha do cangaceiro em versos:
“Antônio Silvino então
No povoado Esperança
Prendeu dois ‘cabeça-preta’
Já ia mandar a trança
Mas um disse: - Seu Silvino
Pelo bem de Deus-Menino
Nós todos temos criança!...

Silvino disse: - Eu não vejo
Vocês com barriga grande
Portanto merecem mesmo
É cair no duro flande!
Já se vê homem enxertado?
O mundo já está mudado
Ou vá direto ou desande.

Deixou Silvino os macacos
Viajou para o sertão/ [...]”.
                (Prelúdio: 1959)

Chagas Batista (Casa de Rui Barbosa: 1977) complementa que os policiais não opuseram resistência e por consequência também não sofreram qualquer retaliação.
Este episódio é já bem conhecido em outros capítulos, aqui repassado para demonstrar a presença marcante do bandoleiro neste Município.
Sabe-se, porém, que Antônio Silvino nunca entrara na vila, aguardando a sua "renda” ora na saída para Lagoa de Pedra, nas proximidades do Antigo SESP; ora na rua do Cemitério, saída para Areial.
Retornando à Esperança, em maio de 1915, o “Rifle de Ouro” – como também ficou conhecido – foi mais ousado, chegando a se arranjar no hotel de seu Manuel Vital Duarte enquanto  esperava o "tributo" proveniente do comércio.
Porém, tomou conhecimento que num dos quartos da hospedaria, a esposa do proprietário, a Sra. Porfíria Duarte, começara a sentir as primeiras dores do parto.
Enquanto o marido servia aos “cabras”, a pobre senhora fazia ecoar pelos corredores “ais” em súplicas. Foi o suficiente para que o “Capitão” desse por encerrado aquela investida, assim narrada pela neta se seu Manuel: “Vovô os acolheu bem, e vovó, nas suas agonias, no quarto, sozinha, deu à luz a minha mãe. Os cangaceiros respeitaram todos no hotel, deixando logo a cidade” (SOUZA: 2018, pág. 57).
Dona Porfíria deu à luz a Maria Duarte no dia 09 daquele mês e ano.

Rau Ferreira


Referências:
- BATISTA, Francisco das Chagas. Literatura popular em verso. Casa de Rui Barbosa: 1977.
- ESPERANÇA, Livro do Município (de). Ed. Unigraf: 1985.
- FERNANDES, Raul. Antônio Silvino no RN. Ed. Clima: 1990.
- SANTOS, Antônio Téodoro (dos). A vida criminosa de Antônio Silvino. Prelúdio. São Paulo/SP: 1959.
- SOUZA, Magna Celi Meira (de). Saudades, um lugar dentro de mim (Memórias). Mídia Gráfica e Editora. João Pessoa/PB: 2018.


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