Conto de João do Norte e outras estórias de
Esperança
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Lobisomem: Arte de Evaldo Brasil, Cordel 49.12/2010 |
Evaldo Brasil em
versos e prosa já decantou muito essa história, que agora a crônica deste
escritor revigora trazida de uma nota de jornal, cuja transcrição meio que
imprecisa, talvez para “esconder” a sórdida aparição do Lobisomem, nos vem do
“Pequeno Jornal”, periódico que se publicava na Paraíba, pelos anos ’30.
Reza a lenda que em
uma fazenda, na ribeira do Banabuiu entre os Campos do Oriá (Areial), existia
um taboleiro grande cujo alto se estendia até um açude. Nele havia uma casa de
alvenaria, com curral cercado de tijolos e porteira, onde descansava emborcado
num giral uma canoa de pescar.
O afilhado do Coronel
Zé contava seus vinte e cinco anos, desde que havia sido encontrado chorando na
estrada, enjeitado que fora pelos pais biológicos, apesar de se atribuir a
prole a Dona Chiquinha, uma mulher-dama da Vila, cujo pai seria o próprio
coronel.
Assim cresceu Manoel
desde cedo dando conta de si.
Durante uma seca,
sofrendo a mulher do fazendeiro de “espinhela-caída”, viajara para tomar
“outros ares”, ficando o rapaz sozinho à espera de uma boiada acompanhada pelo
vaqueiro, guardando cinco contos de réis para a paga do gado.
Era muito dinheiro
para ficar ali esperando e aquela dinheirama toda chamava a atenção dos
sitiantes que comentavam nos botequins até que Geraldo se achegando ao rapaz
falou de um vulto que estava sendo visto pela redondeza fazendo assomos de que
seria algo misterioso.
O Manoel queria
entender que era uma onça, mas onça já não existia por ali. Foi quando Geraldo
falou de um sujeito que havia chegado do Norte e que não se confessara e vivia
de rogar pragas a meio mundo.
Surgiu a grande ideia,
de fazer uma “emboscada” para pegar o bicho a unha... Manoel deitado numa rede
ficara a espera com o dinheiro num bizaco que não podia deixar em casa pois
temia ser roubado; enquanto Geraldo escondido com um clavionete fazia a guarda.
Lá pelas tantas da
madrugada, quando a brisa se fazia mais fria e o povo já escutava um uivo
estranho, o balançar da rede ficou pesado quando de repente surgiu um homem
todo peludo provocando medo a mais crente alma, passando a mão na rede e
pegando dela o dinheiro de Manoel.
Surpresa teria o
“bicho” ao ver que o saco estava vazio e que na sua frente apontara Manoel a
arma de onde saiu um fogaréu atingindo o tal Lobisomem que caiu ao solo ferido.
Descoberta a farsa, o animal era o próprio Geraldo que tencionava pegar o
dinheiro que o fazendeiro entregara a Manoel para comprar a boiada.
Na rede ficara apenas
um moirão de baraúna que Manoel trocara num piscar de olhos, desconfiado que
era das “coisas do outro mundo”, fingindo ser gente.
Este conto de autoria
de João do Norte (pseudônimo de Gustavo Barroso – 1888/1959), adaptei a nossa
realidade para dar conta do Lobisomem que aparece igualmente de tempos em
tempos em Esperança.
É certo que cita-se
“Banabuiu”, porém não o posso afirmar que seria a mesma localidade que ficara
conhecida pelo topônimo de Esperança, neste Estado da Paraíba. Não saberia
dizer o alcance deste rincão na literatura nacional. Contudo, citando-se o seu autor o "Oriá", cidade vizinha hoje conhecida por Areial, fica ainda mais curioso.
Evaldo já escreveu “De
como o Lobisomem revelou o seu amor”, a “transformação” e o “sumiço do
Lobisomem”, cordéis de sua lavra que imitam na arte um pouco o que a vida nos trás.
João Thomas Pereira –
em suas memórias – nos conta que as estórias de Lobisomem são comuns em
Esperança; que nos arredores da cidade existia uma Lagoa, em cujas margens
habitavam algumas “quengas”, onde por vezes, a tal aparição surgia: vestido de
couro cru, cabelos longos com pelos pelo corpo que lembravam o “bode pai de
chiqueiro”.
Um seu tio, de nome
Pedro, homem valente e que nada temia, em suas andanças, deparou-se com o
“sujeito” e partindo pra cima, arrancou-lhe a máscara, descobrindo um conhecido
comerciante local que lhe pediu segredo de sua identidade.
A notícia correu o
mundo e Pedro colocou na porta a figura horripilante para quem quisesse ver,
guardando sigilo apenas do seu dono.
Anos depois na Rua da
Urtiga veio de novo o Lobisomem assombrando as vizinhanças, desta vez era uma
moça da elite que, após ser descoberta, desapareceu do lugar para bem longe.
His(es)tórias de
Lobisomens, Porcas e Homens-nús sempre povoam a nossa cidade, tão peculiar e
que fazem da cidade uma das mais folclórica da Paraíba.
Rau Ferreira
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