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SOL comenta "A Voz da Terra" de Peryllo D'Oliveira


Peryllo: www.casadamemoriaararuna.com
Severino Peryllo D’Oliveira foi um grande poeta. O mulato filho de Araruna/PB saiu de casa aos 15 anos, atraído por uma atriz italiana dirigente de uma companhia de teatro. Depois de experimentar os palcos, voltou à Parahyba com o também poeta Silvino Olavo. A sua obra passeia pelo lírico e modernismo. Depois de publicar “Canções que a vida me ensinou” (1925) e “Caminho cheio de sol” (1928), trazia à lume “A voz da terra” (1930) a propósito do qual fazia o amigo Silvino belíssimo ensaio.
O livro – apesar de melancólico – trazia a “brasilidade” tão esperada por aqueles jovens, que acabaram de conhecer Mário de Andrade quando de sua visita à Parahyba, sendo esta “o embrião de uma alegria sui generis”.
Dizia Olavo encontrarem-se os dois agora no mesmo plano poético, num “changuez admirável!” e acrescenta: “essa filosofia melancólica, que é o segredo da sua harmonia anterior, nem a nota desse otimismo que não chega a ser idealismo”.
De fato, se compararmos as poesias “Conselho” de Perylo e “Alegria interior” de Silvino iremos perceber uma aproximação do primeiro em relação ao segundo, com muita identidade no primeiro poema.
A título de exemplo, eis alguns versos extraídos destes poemas:
Se és triste e te consagras à Beleza,
Compreende a alegria de ser triste
E ama serenamente essa tristeza... [Olavo: 1927]

Se és triste, ergue para o alto a tua taça
e canta, pois cantando
farás com que o sofrer seja mais brando

e esquecerás, talvez, tua desgraça. [Perylo: 1930]
Os poemas d’A voz da Terra encerravam não apenas a síntese da fé e do espiritualismo do autor, mas a própria fé católica em sua essência. Citando um parênteses, Silvino então enaltece aquele escrito: “Brasil sem modos moreno piegas – maxixes, modinhas, pastoris e catimbó. Brasil valentão ciumento que por qualquer coisa catuca o amor e o destino com faca de ponta”.
E finaliza com um breve conselho: “Continue assim, caríssimo poeta, servindo às belas perspectivas do seu espírito e espere, que lhe não tardarão os louros que você merece”.
D’Oliveira é patrono da Cadeira nº 25 da Academia Paraibana de Letras, enxerto deste trabalho que trago os versos d’A Voz Triste da Terra, publicados na Revista de Antropofagia:
Eu devia ter ficado
perdido nos meus terrores

Não me deviam ter dito
os nomes das coisas bonitas
que os barcos trouxeram de longe
nem a natureza de tudo o que eu via.
Deviam ter deixado que eu adivinhasse...
Eu adivinharia!

Peryllo faleceu ainda jovem, aos 32 anos, em sua residência, no Jaguaribe. Os poucos amigos acompanharam o seu féretro ao Cemitério da Boa Sentença, descendo à sepultura em 26 de agosto de 1930.

Rau Ferreira


Referências:
- A UNIÃO, Jornal. Ed. Julho. Parahyba do Norte: 1930.
- ANTROPOFAGIA, Revista (de). Ano I, Nº 5. Dir. Antônio Alcântara Machado. Gerência de Raul Bopp. Setembro. São Paulo/SP: 1928.
- FLORES, Rosali Cristofoli. Acervo do Memorial da Academia Paraibana de Letras: Conhecimento para preservação. UFPB. João Pessoa/PB: 2010.
- PARAHYBA, Anuário (da). Imprensa Official. João Pessoa/PB: 1934.

- SITE, Casa da Memória “Severino Cabral de Lucena”. Peryllo D’Oliveira: Dados biográficos. Disponível em: http://www.casadamemoriaararuna.com/peryllo.htm#Dados Biográficos, acesso em 23/04/2017.

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