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Silvino e Anayde

Revista da Cidade, Ano III, N. 106

"Silêncio! Anayde Beiriz!!! Puxa que falta de ar!"

Silvino Olavo

Ela era chamada de “Pantera dos olhos dormentes” e para alguns foi o pivô da Revolução que destituiu o governo da Parahyba e derrubou um presidente, colocando fim na hegemonia do “Café com leite”, movimento político que alternava São Paulo e Minas Gerais nos destinos da nação. Seu nome: Anayde Beiriz!
Autora de poemas modernistas, publicados em revistas do sul do país, a jovem também é considerada o maior símbolo do feminismo paraibano. Era a favor do divórcio e do direito ao voto da mulher e, portanto, a frente de seu tempo. Certamente, era um ícone para as amigas: Analice Caldas, Amelinha Theorga e Nininha Norat.
Anayde era tudo isso e muito mais. Era a rainha da beleza, título que conquistou no concurso do jornal “Correio da Manhã”.
A professorinha retratada no filme “Paraíba mulher macho” (Tizuka Yamazaki/José Jóffily: 1984) participava ao lado do “Grupo dos Novos” dos sarais que encantaram a capital nos anos 30.
E Silvino estava lá! Nas reuniões telúricas, nos encontros de cultura, nos salões de dança da sociedade pessoense. Anayde fazia parte do seu círculo de amizades, assim como Amaryllo de Albuquerque, Perilo D’Oliveira, Orris Barbosa, Eudes Barros, Severino Alves Aires e Raul de Góes.
José Jóffily, em seu livro, comenta que: “Naquele ano ainda era possível o convívio de Anayde Beiriz com a burguesia local, por dois motivos relevantes: em concurso de beleza do Correio da Manhã tinha sido classificada em primeiro lugar, além do que ainda não se iniciara seu romance com João Dantas” (CBAG: 1980, p. 27).
Estes se reuniam na casa do médico Maciel Pinheiro, na capital do Estado, onde Anayde frequentemente declamava seus poemas, tão admirados por Austro-Costa.
Raul de Góis – em artigo produzido para os Diários Associados – confessou que Silvino era o líder daquela trupe de amigos, sendo o primeiro a falar e recitar; destacando-se pela voz taciturna, seu trajar elegante e liderança incomum.
Todos reverenciavam Anayde, até mesmo o nosso poeta, como se nota nesta página intitulada "Musa Fútil" de 1º de maio de 1925:

Ah! Só ela não passa... As outras passam rindo;
Hilda Netto, Dulce Aragão, Laudicéa,
Lourdes Borges, Nevinha Oliveira – Phrinéia...
Ivete Stukert, Hilda Seixas... Povo lindo!
Branca Siqueira, Odete Gaudêncio, Flaviana Oris,
Bulhões, Renato Azevedo, Juvêncio Lyra, Humberto Paote,
o maestro Bayard, Ida Luna, Peryllo ô, ô, ô que zuada!
Silêncio! Anayde Beiriz!!! Puxa que falta de ar! Analice, Nautília, Elísia, Onélia Lins...
Paraíba - Cidade dos jardins.
Quanta gente sem juízo!
Se isto é inferno ninguém neste inferno se salva.
As vezes penso que isto aqui é um paraíso
E não é bago... Adeus Geny, você já vai?
Silvino Olavo

Mas a vida não se resumia a festas, o momento político efervescia com as proximidades da campanha eleitoral e estava longe de uma solução prática. Washington Luís defendia a candidatura de Júlio Prestes, com o apoio da máquina federal e da maioria sulista, enquanto surgia neste cenário o desconhecido Getúlio Vargas e seu companheiro de chapa João Pessoa que desafiou meio mundo como o seu “Nego” tão decantado.
A paraíba travava uma luta interna, deflagrada pela “Revolta de Princesa”, que na capital encontrava forças no discurso de João Dantas, a quem Anayde nutria grande afeição. Silvino era então o chefe de gabinete do governador, e amigo das telúricas da jovem Beiriz.
Talvez nessa condição, quisesse Olavo aplacar o que poderia vir à tona com a devassa que teria sido feita no escritório de João Dantas?
Mas o presidente João Pessoa – segundo dizem - não escutava ninguém, e impunha uma retórica de autoritarismo velado por uma democracia urbana, esquecida dos reclamos rurais que tanto desagradara os “coronéis”.
Todavia, não seremos juiz da história já que esta, em particular, tem seus próprios julgadores, autores de diversas teorias acerca dos fatos que antecederam a sua morte.
Para o biógrafo João de Deus Maurício (A vida dramática de Silvino Olavo) essa gama de emoções, vivenciadas pelo vate esperancense, “Certamente poderosas razões contribuíram para aquele estado de espírito” (Unigraf: 1992, p. 09), que culminaram com a sua interdição quatro anos depois.
De sua musa, guardara apenas os versos acima, acentuados pelo movimento vanguardista, reservando no recôndito de sua mente a verdade daqueles fatos, que até hoje acaloram muitos debates políticos.

Rau Ferreira


Referências:
- CIDADE, Revista da. Ano III, N. 106. Recife/PE: 1928.
- CONCEITOS, Revista. Ano XI, Nº 19. Dezembro. AdufPB: 2013.
- JOFFILY, José. Anayde Beiriz: paixão e morte na Revolução de 30. Ed. CBAG Editora: 1980.
- JOFFILY, José. Anayde Beiriz: paixão e morte na Revolução de 30. Ed. CBAG Editora: 1980.
- LUNA, Lourdinha. A história de Anayde. A União. Edição de 19 de abril. João Pessoa/PB: 2016.
- PINHEIRO, Mariza de Oliveira. MORAIS, Maria Arisnete Câmara de. Tecitura epistolar: leitura e confissões de amor. UFRN. Disponível em: http://www.alb.com.br/anais16/sem03pdf/sm03ss13_09.pdf, acesso em 26/03/2016.
- MAURÍCIO, João de Deus. A vida dramática de Silvino Olavo. Unigraf. João Pessoa/PB: 1992.

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