Esperança: Entre o Cariry e o Agreste

By | 30.3.16 Deixe seu comentário
O professor Gerard Prost em três artigos para a Revista Brasileira de Geografia (IBGE) fez um importante estudo sobre os aspectos regionais da Paraíba. Os seus estudos são o que há de mais completo para entendermos a dicotomia Agreste-Brejo. Nesse aspecto, o seu trabalho está focado na região de Esperança, com os títulos: O Agreste de Esperança, A Fronteira Cariri-Agreste de Esperança e O Cariri Semiárido transformado pelo agave.
Em nossa modesta contribuição para a história loca, pretendemos fazer um resumo dos dois primeiros trabalhos. A matéria completa pode ser lida através do link a seguir:

1.     O Agreste de Esperança

Contrasta fortemente com as regiões vizinhas, e portanto seus limites não são bem definidos. Não apresenta paisagem montanhosa, solo vermelho e constância do verde como se observa no Brejo; tão pouco apresenta os vastos horizontes de Caatinga ou mesmo os mosaicos herbáceos do Agreste. Trata-se, pois, de uma região sem grandes acidentes geográficos, de campos cobertos por uma areia branca.
A espessa camada arenosa atinge de 50 cm a 2 metros sobre formações argilosas ricas ou não em cascalho (migmatitos, gnaisses e xistos). As precipitações são mais abundantes que nos Cariris, porém menos escassas que no Brejo, chegando a atingir 700 mm (1968) nos períodos de fevereiro-março e julho-agosto.
2.     Agricultura

É praticada em dois ciclos, onde se cultiva na cabeça dos leirões batata-doce, coentro e jerimum (abóbora). Nos planos baixos, que recebem maior influência das infiltrações advindas das chuvas, costuma-se plantar a batata inglesa. No limite de algumas propriedades, pode-se ver o “agave” em cercas-vivas ou um alinhamento de capim que fornecem diversos cortes durante no ano. Planta-se ainda a palma forrageira e a palmeira catolé.
Os produtos mais apreciados pelos agricultores são: milho, feijão, mandioca e algodão.
Acerca da nossa batata inglesa, registra o autor que está era sujeita a pragas e doenças e que “há cêrca de 5 ou 6 anos ocorreu uma moléstia, não identificada, que provoca em um só dia a morte da planta. Apesar destas dificuldades é a cultura que traz maiores rendimentos financeiros, tendo bom mercado de consumo e preço compensador”. Ainda segundo ele, o seu cultivo era praticado desde 1930.
O rendimento dessas culturas era considerável, consoante o quadro do Professor Prost:
Batata-inglêsa .... 2 500 a 5 000 kg
Milho ............  250 a 1 000 kg
Feijão mulatinho ..  500 a 3 000 kg
Feijão marcassa ... 250 a 500 kg
 Mandioca (farinha) 1 000 a 5 000 kg
Algodão ......... 150 a 500 kg
Batata-doce ....... 3 000 kg

Praticava-se uma agricultura de subsistência, sendo o pouco excedente comercializado nas feiras livres. Em associação com as plantas, o homem do campo criava pequenos animais e algumas reses. Os custos pesavam para o pequeno agricultor. Para se ter uma idéia, um caminhão de estrume naquela época custava 120 Cruzeiros Novos.
A densidade média era 60 habitantes por Km2, uma média de 5,5 pessoas ocupando cada propriedade. A força de trabalho era composta de 2 a 3 pessoas, com média de 20 a 30 anos. Havia casos em que o sítio registrava um ou dos assalariados que trabalhavam na terra ou em casas de farinha.
Alguns proprietários praticavam o arrendamento de suas terras, que lhes garantiam Cr$ 5.000,00 (cinco mil cruzeiros) no ano-referência 1966. Segundo o pesquisador: “êste sistema, favorável àquele que explora a terra, desapareceu quase que inteiramente, sendo substituído pela meia. Neste caso os proprietários da terra dão por vêzes as sementes, mas raramente participarão dos trabalhos emprestando um arado ou cultivador; em nenhuma destas terras será permitido o plantio da agave ou mesmo da mandioca que cresce lentamente e cuja colheita só poderá ser feita durante o 2.0 ano após o plantio. Dêste modo o proprietário não terá que fazer indenizações ao meeiro caso não se prolongue sua permanência na propriedade”.
Caracteriza-se a região por minifúndios com 5 a 6 hectares e alta densidade demográfica (150 háb/Km2) denotando assim ser uma população residencial, e não efetivamente que explora a terra. Não obstante, alguns deles trabalhem “alugado” nos terrenos vizinhos. O avanço principiou a 25Km a partir do chamado “Brejo”, e nas terras fronteiriças a Lagoa Seca.
Até 1920 o travessão que delimitava o pastoreio da agricultura passava a mais de 10 Km a Leste de Esperança. Havia em lugares espaços pequenos criadores. Era um “Cariri”, na expressão dos antigos. Crescia de forma abundante facheiros, cardeiros, picuris, cumatis, paus d'arcos, baraúnas e aroeiras. Nela se verifica a presença de grandes fazendas, em contraposição ao Agreste de Esperança cuja característica principal eram os sítios familiares.
Entre 1915-18 vieram alguns brejeiros que adquiriram terra no lugar “Lagoa Salgada” (Montadas), destinando-as ao plantio. A partir de 1921 a área de “Lagoa Verde” (Esperança) começa a ser ocupada em larga escala.
A morada do poeta (Fazenda Bela Vista) “foi adquirida pelo atual proprietário em 1931, por ocasião da divisão da grande propriedade que antes aí existia. A exploração destas fazendas permanece a mesma de antes; todavia, uma parte das propriedades situadas na direção do leste foi cultivada com plantas alimentícias por pequenos locatários que habitam ao lado delas”.
No processo de alienação encontrou ele apenas pequenos compradores. Eis a razão para o parcelamento da terra. O restou passou às mãos do Coronel Cândido (pai de Silvino Olavo) que adquiriu a maior parte.
Houve um grande crescimento demográfico, tanto que em 1940, não havia mais a “grande mancha de Caatinga” que foi “substituída por uma das populações rurais mais densas do Nordeste do Brasil”. Nesse aspecto, o chamado “Cariri” recuou em frente ao Agreste, através da ocupação do solo por sitiantes.
Alguns sitiantes constituíam “bodegas” em suas residências. Nelas havia produtos de primeira necessidade e a famosa “cachaça”.

Rau Ferreira


Fonte:

- PROST, Gerard. O Agreste de Esperança - A Fronteira Cariri-Agreste de Esperança. In: Revista Brasileira de Geografia. Volume 30, Nº 03. Rio de Janeiro/RJ: 1968.
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