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João Nunes nunca existiu


A produção de um livro é um trabalho que muitas vezes vai além das mãos do escritor. O editor está diretamente envolvido na obra desde a leitura inicial a tomada de certas decisões. O ilustrador conversa com a obra e com o seu autor. Produz-se então a “boneca” do livro, o protótipo para impressão final, que simula o resultado gráfico.

Neste percurso, muitas imperfeições são trabalhadas, porém algumas delas escapam e são objeto de “erratas” pelo publicador. É o que suponho ter acontecido na escrita de Egídio de Oliveira Lima (1904/1965), em seu livro “Os Folhetos de Cordel”. João Nunes nunca existiu, deve ter sido erro no trabalho de digitação.

Quando o autor narra “Os Sofrimentos de Alsira” (leia-se: Alzira) – folheto de 48 páginas e 228 sextilhas, de autoria de Leandro Gomes de Barros, publicado em primeira linha pela Impressa Industrial (1907), menciona que “os cantadores tem-no decorado. O violeiro João Nunes cantava-o de avante a ré” (pág.141). E mais adiante, faz a seguinte referência: “Estes versos cantados pelo velho cantor esperancense desfrutam larga estima na zona rural do Nordeste”.

Ao comentar “A Força do Amor” (Alonso e Mariana), um clássico do cordel, também editado em 1907, de Leandro Gomes de Barros, Egídio foi mais preciso: “João Benedito Viana cantava-o” (pág. 22), e em sequência, chama-o de: “o velho cantor”, tal qual o fizera no cordel anterior (O Sofrimento de Alzira).

Conta-se que Benedito, naquela oportunidade, “azucrinava” a assistência, como que querendo suspender a cantiga. Assim explica Egídio Lima: “É hábito entre muitos cantadores o de cortar o fio da meada. Suspendem voluntariamente o canto e explicam ou criticam os acontecimentos contidos nos versos já descritos”. Benedito, nesta cantoria, procurava dar um ar sonoro fúnebre, completando assim a ilustração do romance que ora declamava.

Ao tratar do folheto “História da Princesa da Pedra Fina”, também de Leandro, Lima foi mais enfático: “Uma das memórias mais prodigiosas que conheci foi a do velho cantador esperancense João Benedito Viana”. Observe o leitor, que em todas essas citações, Egídio repete as expressões “velho”, “cantor/cantador” e “esperancense”, dando conta de que o poeta sempre declamava esses versos.

Átila Almeida e José Alves Sobrinho, em seu Dicionário Bio-Bibliográfico (1978), F. Coutinho Filho no livro “Repentistas e Glosadores” (1937), e Guimarães Barreto (Excursão pelo reino das trovas: 1962), também o fazem; assim como os seus companheiros de viola, a exemplo de Josué da Cruz. Isto só reforma a nossa tese!

Egídio Lima não apenas conhecia João Benedito (1860/1942), como eram conterrâneos, pois ambos nasceram em Esperança, nesse Estado. Ele assistiu muitas cantorias de João Viana, a exemplo do desavio “quatro por quatro”, que envolveu Benedito, Elízio Felix “Canhotinho” de Souza (1915/1965) e José Virgulino “Mergulhão” de Souza (1907/1939), acontecido em Campina Grande.

Benedito chegou a fundar uma “escola de cantoria”, da qual foi aluno Zé Alves Sobrinho, e viveu por um tempo desta renda, quando não preparava as suas “garrafadas” que vendia na feira. Porém, no final da vida, passou por muitas dificuldades, como me relatou Saro Amâncio, o jovem que o acompanhou não só nas cantorias, mas nos últimos dias, fato este confirmado por Vicente Simão, ex-funcionário da Escola “Irineu Jóffily”, que conhece muito da história local.

É o que nos afirma Ruth Trindade de Almeida, no seu “Almanaque Popular do Nordeste” (Naea – Belém: 2019):

Ligado ao problema da instrução, é importante assinalar que o pouco preparo dos poetas não impediu que alguns se dedicassem ao ensino. João Benedito, cantador falecido em 1943, manteve classe particular, em Cuité-PR. Na velhice, esse poeta viveu dos donativos de seus ex-alunos” (ALMEIDA: 2019, p. 170).

Vê-se aqui também um claro erro de digitação, pois não existe esta cidade (Cuité) no Paraná, o certo mesmo é Cuité na Paraíba.

Dito isto, não resta dúvida de que foi um erro do digitador, já que ao longo de todo este trabalho Egídio Lima deixa claro que o “velha cantador esperancense” era João Benedito. Como se não bastasse, nas minhas pesquisas, e em consultas a profundos conhecedores desta literatura – a exemplo de José Paulo Ribeiro e Xico Nóbrega –, nunca encontrei, nem se ouviu falar no glosador João Nunes.

Longevo, o cantor esperancense chegou aos 80 anos, como se registra em documento, mas talvez tenha alcançado os 90, pois naquela época não se fazia a certidão de início e muitas vezes os pais nem sabia ao certo a data de nascimento, o que provocava muitos equívocos na idade das pessoas. Talvez por isso, Zé Alves e outros autores, dizem que ele teria sido escravo ou que nasceu “quase livre”, dando a entender que veio ao mundo pouco tempo depois da abolição.

 

Rau Ferreira

 

Referências:

- ALMEIDA, ÁTILA Augusto F. (de). SOBRINHO, José Alves. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada, Volumes 1-2. Ed. universitária: 1978, p. 158;

- ALMEIDA, Ruth Trindade (de). Almanaque Popular do Nordeste. Naea Editora. Universidade Federal do Pará. Belém/PA: 2019.

- BARRETO, Guimarães. Excursão pelo Reino das Trovas. Irmãos Pongetti. Rio de Janeiro/RJ: 1962.

- LIMA, Egídio de Oliveira. Os folhetos de cordel. Ed. Universitária/UFPb: 1978.

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