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Silvino, por Roberto Cardoso

 

Silvino Olavo. Morou próximo da minha casa. Quase todos os dias, via-o caminhar pelas calçadas irregulares da minha rua contemplando as pessoas com um aceno de cabeça. Permanentemente bem vestido, metido em ternos elegantes quase sempre em tons cinza. Da praça Dom Adauto, saía no banco traseiro do seu Aero Willis dirigido por Toinho, casado com sua sobrinha, Maria Alice. Quase não se desgrudava de uma bengala de madeira com detalhes de metal. Seu caminhar passava a ideia de que não tinha compromisso com a vida. Também morou na companhia de sua irmã, Alice, casada com Valdemar Cavalcanti, na Fazenda Bela Vista, hoje bairro Bela Vista. Ficava na residência defronte a do casal. Ouvia, quando por vezes visitei o casal Valdemar/Alice, seus gritos que atravessavam os muros rompendo o silêncio do lugar. Era a sintomatologia da doença que o acometera.

A dramática vida do poeta, alternando momentos de lucidez e alucinações, quando acometido da esquizofrenia, não o impediu de produzir aqui e ali os versos que deixou feitos à grafite em papéis de embrulho sobre balcões nas salas comerciais, alfaiatarias e barbearias da cidade.

Em julho de 1985, movido pela vontade de divulgar em sua cidade natal parte da sua produção literária, publiquei as obras Cysnes e Sombra Iluminada num só volume. Pensava eu, naqueles idos anos, que haveria interesse e apoio dos estudantes e das autoridades constituídas. Foi uma grande decepção. Banquei um prejuízo dos grandes. Não me arrependi. Num artigo introdutório intitulado “Deve Ser Lido”, escrevi “não sei de que forma serei recebido pelo público leitor...” Passados esses 25 anos - Jubileu de Prata - eu sei exatamente como fui recebido e por isso afirmo que não teria coragem de repetir a experiência. Desejo ao meu amigo Rau melhor sorte.

A ênfase em temas místicos, imaginários e subjetivos assim como o caráter individualista e a estética marcada pela musicalidade, características constantes do Simbolismo, estão sempre presentes na obra de Silvino. No Brasil o nome maior do simbolismo foi Cruz e Souza. A expressão maior desta escola no mundo é Charles Baudelaire. Mas Silvino também incursionou com bastante desenvoltura pelo Parnasianismo, que consagrou, no Brasil, Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia. Sua poesia também foi marcada pela impessoalidade, valorização da estética, busca da perfeição, linguagem rebuscada, vocabulário culto, mitologia grega, preferência por sonetos com ênfase para metrificação que são características parnasianas. Aliás, acho Silvino muito mais parnasiano que simbolista, que me desculpem os estudiosos de literatura.

Se publicar livros rendesse votos, com certeza, algumas lideranças municipais estariam ao lado de Rau. O fato, porém, é que literatura não ajuda a eleger ninguém. Tanto é que o peruano, Jorge Mario Vargas Lloza, Nobel (2010), que já fez sua incursão pela política, perdeu a eleição para presidente do seu país, em 1990, para ninguém menos que o corrupto Alberto Fujimori. As artes, de um modo geral, enfrentam a visão míope dos executivos e o apedeutismo dos legisladores. Se, porém, escritores ou jornalistas fizerem um só comentário que possa resultar em ofensa a quaisquer políticos, os céus caem. Tanto é que o Partido dos Trabalhadores, que ainda está no poder, cerceia de forma disfarçada nossa imprensa e até ventila a ideia de criar um órgão controlador para as comunicações.

Preocupado com a mercantilização da literatura, o Nobel português, José Saramago (1922-2010), em artigo escrito pouco antes da sua morte, afirmava que “de futuro, sirva de exemplo, não serão escritas Histórias da Literatura Portuguesa, mas sim Histórias do Investimento Literário em Portugal. E os estudantes usarão as suas calculadoras de bolso para comprovar o valor de mercado de Jorge Sena, de Eduardo Viana ou de José Rodrigues Miguéis...” Faço essa afirmação apenas para evocar o desrespeito que parte da nossa sociedade tem para com as vocações literárias, como se gostar de leitura fosse um defeito ou uma falta humana.

A literatura retrata todas as coisas do seu tempo. É fruto das ocorrências no espaço em que acontece. Reflete os costumes, o nível intelectual, as tradições, a tecnologia e os preconceitos próprios de um lugar e de um tempo. Hoje não existem mais histórias contadas sem computadores, celulares, GPS e MP3. Sem viagens intercontinentais em ultrassônicos. A literatura é um work in progress que habita a geografia do seu tempo, a topografia do seu espaço eternizando-se com tudo que em seu acontecer é provisório e incontínuo. Silvino Olavo da Costa fez isso no seu tempo e a seu modo. Nós, passados esses 41 anos de sua morte, nos detemos um pouco na análise da sua arte. E, claro, como bairristas e megalomaníacos que somos, vamos colocá-lo na galeria onde estão Homero, Cervantes, Dante, Shakespeare, Camões, Dostoievski, Bandeira, Drumond...

 

Roberto Cardoso*

 

* O autor é jornalista e professor universitário. O texto foi enviado por email em 28 de outubro de 2010.

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