Pular para o conteúdo principal

Mocidade, de um autor desconhecido

Poucos tem a sensibilidade de um Rilke com poesia à flor da pele. Assim o texto “Sobre a mocidade” que encontrei nas páginas d’A União. A redação que muito se assemelha à “Mocidade e idealismo”, - não apenas pelo tema, mas no gênero escolhido -, enxerta em sua escrita muitos conceitos de um tal escritor, igualmente esquecido.
Embora sem a rubrica de poeta, podemos observar a semelhança das ideias, a coerência e construção textual daquele que foi, o grande expoente intelectual de nossa terra: Silvino Olavo. Como o vate, o autor de “Sobre a mocidade” usa jargões bastante conhecidos, com a linguagem alienígena alicerçada no conhecimento cultural.
Nesse aspecto, a crônica de Augusto dos Anjos, que antecede “O gênio parahybano”, escrito por Silvino Olavo em duas edições seguintes, mostra-se coerente com o pensamento deste autor. A hipótese desta nossa tese pode ser verificada neste blog, em consulta ao item em questão.
A seguir, a transcrição deste lirismo que preenche a coluna literária daquele jornal, editado na data do meu aniversário no último ano do governo Suassuna:
SOBRE A MOCIDADE
A idade... a nota mais aguda da sensibilidade humana!... Por mais que se esforce a palavra caridosa dos fisiologistas para conhecer-nos que não há propriamente a idade cronológica; que o organismo vivo apenas reflete o estado das células que o compõe, nós, pobres criaturas que vivemos para o mundo dos sentidos, lemos, a despeito de tudo, unicamente no convencionalismo do calendário, as condições irrevogáveis da nossa mortalidade...
A nossa imaginação, excitada pelo amor que sentimos à vida, às coisas que vemos, possuímos ou desejamos possuir, traça linhas invisíveis que definem as nossas possibilidades na conquista dos ideais. A infância, a mocidade, a madureza, a velhice, são círculos incandescentes, vertiginosamente girando em torno de um eixo infinito: os nossos desejos. A última daquelas estações, a despeito de todos os elixires da felicidade – a beleza, a glória, a fortuna – infiltra-nos na consciência, insidiosamente, a verdade dolorosa do barro bíblico... É, contudo, nesse instante crepuscular da existência, que o nosso sentimentalismo mais requinta o sabor das coisas vividas, numa evocação subjetiva do dístico imortal de  Dante.
Vencendo tudo, inclusive os preceitos da etiqueta, certa revista parisiense, sob o título de De que mais tendes saudades ao envelhecer?, empreendeu uma ‘enquete’ entre as personalidades mais ilustres das letras francesas.
As respostas, que trazem, além de curiosas evocações, imprevistos estados d’alma, convém ser lidas, em atenção mesmo aos nomes dos seus autores:
Marcelle Tinayre, a grande romancista, sorrindo, contestou:
- Sabe que é bem indiscreta a sua pergunta?
Para obter uma sinceridade perfeita!...
Por minha parte, não me sinto absolutamente envelhecer, mas se envelhece de qualquer modo... O que mais lamento? Nada.
Deu-me a mocidade tudo o que lhe pedi. Sobereio, em paz, um doce e belo outono, e torno-me, outra vez, nova em meus filhos.
A princesa Lucien Marat respondeu espirituosamente:
- O que mais sinto vendo-me envelhecer?
Sem dúvidas, a beleza desfeita, a mocidade desaparecida e, os cabelos fugitivos daqueles que, outrora, me disseram amar...
Nossa velhice é o fardo dos nossos contemporâneos...
Claude Farrere, o admirado autor de La Balile e de tantas outras obras primas da literatura francesa:
- O que mais lamento em me sentindo envelhecer?
Minha mocidade. Integralmente.
Maurice Rostand:
- Ce qu’on regrette em vieiffissant.
Ce n’est pas de vieillir soi-meme.
Mais de voir, desésperement.
Vieillir les êtres que i’on alme!
E as nossas leitoras o que diriam, se fossem ouvidas sobre esse tema impressionante?
Consultem os seus corações e, baixinho, respondam, não ao indiscreto repórter, mas ao de Estado conselheiro das mulheres: o espelho”

A publicação em questão não tem autoria precisa e, ao que parece, não foi concluída com um ponto final e, nas páginas seguintes, não há menção de encerramento como era de se esperar. Também no índice daquele “Suplemento de Arte” d’A União, não se indica o responsável. Contudo, sabe-se que SOL era franco colaborador daquele jornal.
Ressalto que Carlos Dias Fernandes – seu colega de redação – produzia muito para A União, mas a sua síntese literária é equidistante daquela escrita por SOL.
No contexto, na forma epigrafada de “Sobre a mocidade”, há muita coesão textual cuja coincidência literária só podemos aludir à autoria do poeta dos Cysnes.


Rau Ferreira

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ruas tradicionais de Esperança-PB

Silvino Olavo escreveu que Esperança tinha um “ beiral de casas brancas e baixinhas ” (Retorno: Cysne, 1924). Naquela época, a cidade se resumia a poucas ruas em torno do “ largo da matriz ”. Algumas delas, por tradição, ainda conservam seus nomes populares que o tempo não consegue apagar , saiba quais. A sabedoria popular batizou algumas ruas da nossa cidade e muitos dos nomes tem uma razão de ser. A título de curiosidade citemos: Rua do Sertão : rua Dr. Solon de Lucena, era o caminho para o Sertão. Rua Nova: rua Presidente João Pessoa, porque era mais nova que a Solon de Lucena. Rua do Boi: rua Senador Epitácio Pessoa, por ela passavam as boiadas para o brejo. Rua de Areia: rua Antenor Navarro, era caminho para a cidade de Areia. Rua Chã da Bala : Avenida Manuel Rodrigues de Oliveira, ali se registrou um grande tiroteio. Rua de Baixo : rua Silvino Olavo da Costa, por ter casas baixas, onde a residência de nº 60 ainda resiste ao tempo. Rua da Lagoa : rua Joaquim Santigao, devido ao...

A menor capela do mundo fica em Esperança/PB

A Capelinha. Foto: Maria Júlia Oliveira A Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro está erigida sob um imenso lajedo, denominado pelos indígenas de Araçá ou Araxá, que na língua tupi significa " lugar onde primeiro se avista o sol ". O local em tempos remotos foi morada dos Índios Banabuyés e o Marinheiro Barbosa construiu ali a primeira casa de que se tem notícia no município, ainda no Século XVIII. Diz a história que no final do século passado houve um grande surto de cólera causando uma verdadeira pandemia. Dona Esther (Niná) Rodrigues, esposa do Ex-prefeito Manuel Rodrigues de Oliveira (1925/29), teria feito uma promessa e preconizado o fim daquele mal. Alcançada a graça, fez construir aquele símbolo de religiosidade e devoção. Dom Adauto Aurélio de Miranda Henriques, Bispo da Paraíba à época, reconheceu a graça e concedeu as bênçãos ao monumento que foi inaugurado pelo Padre José Borges em 1º de janeiro de 1925. A pequena capela está erigida no bairro da Bele...

Controvérsia religiosa em Esperança: o desafio de Frei Damião

  A controvérsia religiosa entre Frei Damião de Bozano e o pastor evangélico Synésio Lyra se iniciou no Município de Esperança, quando o frade em uma de suas missões, realizada em março de 1935, incitou o povo a não manter “ transações comerciais ” com os protestantes. O número de evangélicos era bem pequeno, pois a semente do evangelho apenas se iniciou em 1922, quando dois missionários da Igreja Congregacional de Campina Grande se deslocaram até o Sítio Carrasco, fundando uma pequena comunidade, de onde surgiu a 1ª Igreja Congregacional de Esperança. À época os missionários andavam em lombos de burros-mulos, e os irmãos quando queriam participar da ceia do Senhor, enfrentavam à pé os 25 Km que separavam as duas cidades. Em praça pública, na última noite, Damião benzeu rosários, velas e medalhas dos fieis e, para garantir que eles obedecessem a ordem, fizeram juras “ solene à Santíssima Virgem ”. A multidão atendeu prontamente. Ninguém podia vender ou comprar bens dos protes...

A Pedra do Caboclo Bravo

Há quatro quilômetros do município de Algodão de Jandaira, na extrema da cidade de Esperança, encontra-se uma formação rochosa conhecida como “ Pedra ou Furna do Caboclo ” que guarda resquícios de uma civilização extinta. A afloração de laminas de arenito chega a medir 80 metros. E n o seu alto encontra-se uma gruta em formato retangular que tem sido objeto de pesquisas por anos a fio. Para se chegar ao lugar é preciso escalar um espigão de serra de difícil acesso, caminhar pelas escarpas da pedra quase a prumo até o limiar da entrada. A gruta mede aproximadamente 12 metros de largura por quatro de altura e abaixo do seu nível há um segundo pavimento onde se vê um vasto salão forrado por um areal de pequenos grãos claros. A história narra que alguns índios foram acuados por capitães do mato para o local onde haveriam sucumbido de fome e sede. A s várias camadas de areia fina separada por capas mais grossas cobriam ossadas humanas, revelando que ali fora um antigo cemitério dos pr...

Genealogia da família DUARTE, por Graça Meira

  Os nomes dos meus tios avôs maternos, irmãos do meu avô, Manuel Vital Duarte, pai de minha mãe, Maria Duarte Meira. Minha irmã, Magna Celi, morava com os nossos avós maternos em Campina Grande, Manuel Vital Duarte e Porfiria Jesuíno de Lima. O nosso avô, Manuel Vital Duarte dizia pra Magna Celi que tinha 12 irmãos e que desses, apenas três foram mulheres, sendo que duas morreram ainda jovens. Eu e minha irmã, Magna discorríamos sempre sobre os nomes dos nossos tios avôs, que vou colocar aqui como sendo a expressão da verdade, alguns dos quais cheguei eu a conhecer, e outras pessoas de Esperança também. Manuel Vital e Porfiria Jesuíno de Lima moravam em Campina Grande. Eu os conheci demais. Dei muito cafuné na careca do meu avô, e choramos sua morte em 05 de novembro de 1961, aos 72 anos. Vovó Porfiria faleceu em 24 de novembro de 1979, com 93 anos. Era 3 anos mais velha que o meu avô. Nomes dos doze irmãos do meu avô materno, Manuel Vital Duarte, meus tios avôs, e algum...