Mocidade, de um autor desconhecido

By | 18.11.16 Deixe seu comentário
Poucos tem a sensibilidade de um Rilke com poesia à flor da pele. Assim o texto “Sobre a mocidade” que encontrei nas páginas d’A União. A redação que muito se assemelha à “Mocidade e idealismo”, - não apenas pelo tema, mas no gênero escolhido -, enxerta em sua escrita muitos conceitos de um tal escritor, igualmente esquecido.
Embora sem a rubrica de poeta, podemos observar a semelhança das ideias, a coerência e construção textual daquele que foi, o grande expoente intelectual de nossa terra: Silvino Olavo. Como o vate, o autor de “Sobre a mocidade” usa jargões bastante conhecidos, com a linguagem alienígena alicerçada no conhecimento cultural.
Nesse aspecto, a crônica de Augusto dos Anjos, que antecede “O gênio parahybano”, escrito por Silvino Olavo em duas edições seguintes, mostra-se coerente com o pensamento deste autor. A hipótese desta nossa tese pode ser verificada neste blog, em consulta ao item em questão.
A seguir, a transcrição deste lirismo que preenche a coluna literária daquele jornal, editado na data do meu aniversário no último ano do governo Suassuna:
SOBRE A MOCIDADE
A idade... a nota mais aguda da sensibilidade humana!... Por mais que se esforce a palavra caridosa dos fisiologistas para conhecer-nos que não há propriamente a idade cronológica; que o organismo vivo apenas reflete o estado das células que o compõe, nós, pobres criaturas que vivemos para o mundo dos sentidos, lemos, a despeito de tudo, unicamente no convencionalismo do calendário, as condições irrevogáveis da nossa mortalidade...
A nossa imaginação, excitada pelo amor que sentimos à vida, às coisas que vemos, possuímos ou desejamos possuir, traça linhas invisíveis que definem as nossas possibilidades na conquista dos ideais. A infância, a mocidade, a madureza, a velhice, são círculos incandescentes, vertiginosamente girando em torno de um eixo infinito: os nossos desejos. A última daquelas estações, a despeito de todos os elixires da felicidade – a beleza, a glória, a fortuna – infiltra-nos na consciência, insidiosamente, a verdade dolorosa do barro bíblico... É, contudo, nesse instante crepuscular da existência, que o nosso sentimentalismo mais requinta o sabor das coisas vividas, numa evocação subjetiva do dístico imortal de  Dante.
Vencendo tudo, inclusive os preceitos da etiqueta, certa revista parisiense, sob o título de De que mais tendes saudades ao envelhecer?, empreendeu uma ‘enquete’ entre as personalidades mais ilustres das letras francesas.
As respostas, que trazem, além de curiosas evocações, imprevistos estados d’alma, convém ser lidas, em atenção mesmo aos nomes dos seus autores:
Marcelle Tinayre, a grande romancista, sorrindo, contestou:
- Sabe que é bem indiscreta a sua pergunta?
Para obter uma sinceridade perfeita!...
Por minha parte, não me sinto absolutamente envelhecer, mas se envelhece de qualquer modo... O que mais lamento? Nada.
Deu-me a mocidade tudo o que lhe pedi. Sobereio, em paz, um doce e belo outono, e torno-me, outra vez, nova em meus filhos.
A princesa Lucien Marat respondeu espirituosamente:
- O que mais sinto vendo-me envelhecer?
Sem dúvidas, a beleza desfeita, a mocidade desaparecida e, os cabelos fugitivos daqueles que, outrora, me disseram amar...
Nossa velhice é o fardo dos nossos contemporâneos...
Claude Farrere, o admirado autor de La Balile e de tantas outras obras primas da literatura francesa:
- O que mais lamento em me sentindo envelhecer?
Minha mocidade. Integralmente.
Maurice Rostand:
- Ce qu’on regrette em vieiffissant.
Ce n’est pas de vieillir soi-meme.
Mais de voir, desésperement.
Vieillir les êtres que i’on alme!
E as nossas leitoras o que diriam, se fossem ouvidas sobre esse tema impressionante?
Consultem os seus corações e, baixinho, respondam, não ao indiscreto repórter, mas ao de Estado conselheiro das mulheres: o espelho”

A publicação em questão não tem autoria precisa e, ao que parece, não foi concluída com um ponto final e, nas páginas seguintes, não há menção de encerramento como era de se esperar. Também no índice daquele “Suplemento de Arte” d’A União, não se indica o responsável. Contudo, sabe-se que SOL era franco colaborador daquele jornal.
Ressalto que Carlos Dias Fernandes – seu colega de redação – produzia muito para A União, mas a sua síntese literária é equidistante daquela escrita por SOL.
No contexto, na forma epigrafada de “Sobre a mocidade”, há muita coesão textual cuja coincidência literária só podemos aludir à autoria do poeta dos Cysnes.


Rau Ferreira
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