Sol: Um erro de meio século

By | 2.8.16 Deixe seu comentário
Quando das minhas andanças por força do ofício na Beleza dos Campos, deparei-me com um cidadão que me mostrando uma casa moderna disse que ali residiram dois grandes do direito local: um tal Silvino e o outro Dr. Durval.
Conheci o segundo, já velho e cansado peticionando em alguns processos criminais que diziam ser especialista, advogando para gente abastarda e comerciantes de carnes. Cheguei a visitar sua vasta biblioteca com aqueles compêndios encadernados e coleções de direito A-Z. Pareceu-me mesmo um grande tribuno defendendo a sua causa no júri. Foi a minha primeira grande impressão e acho até que estava decidido a ser bacharel. Não durou muito e, formado sem anel no dedo, aspirava já ser promotor...
Mas o que reclama esta minha crônica não é a vida pessoal e sim o que me dissera aquele desconhecido numa tarde de quinta-feira.
Narrava-me que certa feita que Silvino avistando o funeral de uma criança que passara repetira: “Nem todas as flores tem a mesma sorte, umas enfeitam a vida outras enfeitam a morte”.
De certo que imaginara o interlocutor ser de sua autoria a frase posta, que guardei na memória. Anos depois descobri que esta pertence ao provérbio português, também citado numa das canções por Bob Marley.
Na época nem imaginei que o velho quisesse exaltar a figura de um poeta que, para mim era desconhecido.
Anos mais tarde, me embrenhando na pesquisa cheguei à conclusão leviana: Silvino nunca dissera tal impropério como sendo seu e se o fizera certamente não fora esses os versos.
Creio, por mais absurdo que pareça, que a sua intenção – se é que o fato atribuído pelo transeunte realmente existiu – era recitar a quadra que fora publicada em ’97 na sua obra “Badiva”:

Atropelos d’Esta: - Senhor!
Antes da Vida e da morte!
Se tem sorte e tem amor,
Só tem amor, não tem sorte!

Pretensão minha querer corrigir um erro de meio século.
Quem sabe tudo não passou de uma “Bravata” daquele desconhecido, desfiando este pobre neófito recém concursado a conhecer a sua própria história.
Na lida diária fui testado em todos os sentidos. Mas fica aqui o registro: se as flores têm sorte diferente que dirá deste pobre escritor!


Rau Ferreira
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