Discurso de Epaminondas Câmara na APL

By | 20.7.16 Deixe seu comentário

Epaminondas Câmara nasceu em Esperança no dia 04 de junho de 1900. Era filho de Horácio de Arruda Câmara e Idalgisa Sobreira Câmara. Aprendeu as primeiras letras com a professora Maria Sobreira, esposa do também professor Joviniano Sobreira. Permaneceu nesta cidade até 1910, mudando-se com a família para Taperoá e, depois para Campina Grande (1920). Técnico em contabilidade gastava suas horas vagas pesquisando. É autor dos livros: Os alicerces de Campina Grande e Datas Campinenses.
Quando tomou posse na Academia Paraibana de Letras, em 21 de junho de 1945, pronunciou o seguinte discurso:
“Se o historiador fosse um príncipe, tivesse sangue azul, poderia dizer a seus súditos: - Vinde primeiro a mim se quereis que eu vos dê tudo. O poeta diria: - Dar-vos-ei aonde estiveres. E se isto acontecesse, decerto que Irinêo daria mais em extensão e Mauro em intensidade, porque os sentimentos de historiador tinham caráter mais paternal, e, os do outro, caráter mais fraternal.
Irinêo, mais aristocrático, entendia a sociedade dividida em camadas econômicas. O outro mais democrático, preferia a nivelação social. Não se veja, porém, no meu ilustre antecessor pruridos niilitas ou socialistas, nem tendência de demagogo ou de anarquista. Ambos democratas, ambos compreendiam a democracia em sentidos diferentes. Para Irinêo ela deveria ser hierárquica, como o universo, como todas as cousas, pesando de cima para baixo, em pirâmide. Para Mauro, ela não deveria pesar em sentido algum para ser harmônica e equitativa.
Se fosse maxista, talvez o historiador preferisse a divisa – a cada um as suas ações. A do poeta seria – a cada um segundo as suas necessidades ou o seu mérito. Ambos tinham sede de glória e pensando nela Irinêo lembrava-se dos grandes homens e dos grandes gênios; Mauro sentiria as musas. O historiador protegia os outros para colaborar com eles, o poeta colaborava para protegê-los, tanto assim que Irinêo perdoava sem demonstrar e Mauro era a eterna demonstração do perdão.
Essa diferenciação de aspectos da mentalidade dos dois ilustres campinenses está patente, clara, definida, através de páginas dos dois monumentos da literatura paraibana – “Notas sobre a Parahyba” e “Horas de Enlevo”, precisamente os dois livros que os imortalizaram.
Quem quer que os perscrute encontrará nas suas linhas e entrelinhas a prova mais robusta dos conceitos aqui expostos. Apreciei os dois saudosos homens das letras com serenidade, sem ânimos preconcebidos, mas com a vontade sincera de esboçar-lhes os méritos e de fazer-lhes justiça. Procurei dentro de minha acanhada percepção psicológica esboçar os seus caracteres sem exceder-me no elogio nem exagerar-me em restrições.
Concluo acrescentando ainda que o valor de ambos seria hoje contemplado em proporções muito maiores e mais larga projeção intelectual, se não lhes ocorresse durante toda a vida a preocupação pela política partidária e tivessem procurado conviver em meio mais adiantado.
Quem não compreende que faltou, a um e a outro, ambiente propício à divulgação e à compreensão de suas ideias, de seus trabalhos literários? Campina Grande era naquela época e ainda é hoje uma cidade sem intelectualidade, não obstante nela residirem poetas e prosadores, jornalistas e estudiosos. Afonso Campos, patrono duma das cadeiras desta Academia, e Severino Pimentel, uma das maiores culturas paraibanas, para se falar apenas em mais dois grandes campinenses desaparecidos, foram como Irinêo e Mauro, vítimas daquele indiferentismo local.
É que Campina Grande, o maior centro comercial, bancário, político, democrático e industrial do Estado da Paraíba, seria um grande centro cultural se nela houvesse clima favorável ao congraçamento, à união de visitas entre os quais se dedicam às letras. Sua sociabilidade tem outra feição. Faltam à cidade os veículos modernos da divulgação.
Consideradas tais dificuldades e tomadas no seu verdadeiro sentido essas minhas indiscrições, robustece-me a velha convicção que possuímos de que o valor cultural de Irinêo e Mauro tem maior profundeza e amplitude do que à primeira vista nos parece”.
Epaminondas era casado com Isaura Câmara, sua prima. Homem íntegro, católico fervoroso como sua mãe, ajudou a fundar algumas paróquias e Associação dos Moços Católicos, na cidade de Campina Grande. Faleceu no dia 28 de abril de 1958.
O texto de seu ingresso na APL nos fala de Irinêo Jóffily e Mauro Luna. Irinêo – que para seu neto Geraldo Jóffily teria nascido em Esperança – nos deixou um grande legado, qual seja o recorte atual do mapa paraibano. Mauro Luna foi um grande poeta.

Rau Ferreira
Fonte:
-        Coletânea de Autores Campinenses. Comissão Cultural do Centenário. Prefeitura Municipal de Campina Grande: 1964.
-        JÓFFILY, Geraldo Irinêo. Um cronista do sertão no século passado: Apontamentos à margem das Notas sôbre a Paraíba, de Ireneo Joffily. Comissão Cultural do Município. Prefeitura Municipal de Campina Grande: 1965.
-        O Educador dos Sertões: vida e obra do Padre Inácio de Sousa Rolim. Volume II. Coleção "Documentos Sertanejos”. Série Paraibana. Gráfica Estado do Piauí: 1991.
-        PIMENTEL, Cristiano. Mais um mergulho na história campinense. Academia de Letras da Campina Grande, Núcleo Cultural Português. Ed. Caravela: 2001.

-        SOARES, Antônio. Autores Parahybanos 99. Ed. Caravela: 1999.
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