De Leandro à Benedito: a poesia de repente

By | 21.7.16 Deixe seu comentário
Essa poesia cantada, adotada desde 1729, nos Cariris-velhos, tem origem na ribeira do Sabugi, com influência da canção portuguesa, no hibridismo regionalista que formou o nosso dialeto parahybano. Para Egídio de Oliveira Lima (esperancense, patrono da Cadeira nº 22 da Academia de Letras e Artes do Nordeste), Leandro Gomes de Barros representa a essência deste folclore.
Ele nos lembra que em Esperança, um parente de Nicandro Nunes da Costa, o professor Luiz Gil de Figueiredo, recitava de cor um improviso que exaltava o cordelista:
“Leandro Gomes de Barros
Escritor paraibano,
No ofício de escrever,
Escreve com calma e plano
Tem fama de repentista
Escritor e romancista
Tem folheto mais de mil
É ainda no Brasil,
- o seu primeiro humorista”.

Nas feiras do interior, ele próprio lia os seus folhetos, improvisando versos, que os “matutos” gostavam tanto de ouvir. À sua freguesia, Leandro repetia:
“Leve para casa o folheto
E veja que a história é boa
Pois sendo escrita por mim
Não pode sair a-toa
Pague dois mil reis por ela,
Se você pretende aquela,
Compre a minha coleção
Sendo esta ocasião
De você ficar com ela”.

Para enfrentar Leandro na cantoria, só Hugolino do Sabugi e Nicandro da Cangalha, isto dizia Manoel Raimundo de Barros, cantador pernambucano. E chegando o Benedito, os outros deitam a viola, em respeito ao velho cantador, que de escravo liberto, chegou a maestria, ensinando versos aos iniciantes do repente.
João Benedito morava ali, na rua do Boi, foi cantador afamado, precursor do repente, temível nos brejos parahybanos. Certa feita, cantando com Antônio Correia Bastos, afirmou:
- Antônio eu nunca encontrei
Forte que não destruísse,
Nem peso que eu não erguesse,
Perigo que eu não investisse,
Nem cantador de seu jeito
Que uma hora me resistisse.

Átila Almeida, em seu Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada (1978), escrito em parceria com José Alves Sobrinho, é quem nos diz: Grandes repentistas e preparadores foram Joaquim Sem Fim e João Benedito, segundo a opinião insuspeita de Antonio Ferreira da Cruz, que também foi poeta popular excepcional”.
O próprio Zé Alves teria aprendido a cantar com João Benedito e Manoel Raimundo, após fugir de casa com 15 anos incompletos, levando a viola nas costas.
Para Coutinho Filho (Violas e repentes: 1972), Benedito era “fabuloso”. Não é por menos, que Câmara Cascudo cita o cantador esperancense, em sua obra “Vaqueiros e Cantadores”.
Do cantador esperancense, ainda repercute esta quadra:
“Há entre o homem e o tempo
Contradições bem fatais!
O homem não faz, mas diz!
O tempo não diz, mas faz!
O homem não traz nem leva!
Mas o tempo leva e traz”.

Bendito cantou com Romano, Nicandro e seu irmão Hugolino, Zé Patrício e Silvino Pirauá, Zé Duda, Caludino e Josué da Cruz.

Rau Ferreira
Fonte:
-        LIMA, Egídio de Oliveira. Os cem melhores folhetos de Leandro Gomes de Barros. Revista Ariús. Campina Grande/PB: 1952.
-        ALMEIDA, Átila Augusto F. De, SOBRINHO, José Alves. Dicionário bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancada. Volumes 1-2. Ed. Universitária: 1978, p.

-        FERREIRA, Rau. João Benedito: O cantador de Esperança. Edições Banabuyé. Esperança/PB: 2011. 
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