Maria Beleza, por Heloísa Duarte

By | 18.2.15 Deixe seu comentário

Por Heloísa Duarte (*)
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A balaustrada era grande, frenteava umas vinte casas pequenas, media mais ou menos uns cem metros de comprimento e uns dois de largura e por ela podiase ver toda a Rua Solon de Lucena, que era larga e ainda calçada com enormes paralelepípedos.
Da parte de cima, do ponto mais alto, também podia verse as casas mais distantes, que ficavam no final da rua, na frente da pracinha com a estátua de São Francisco, como a de Maria de Beleza. Era uma casinha pequena, dividida por móveis e possuía um fogão a carvão. O banheiro ficava de fora, e as pessoas que ali moravam ou as que vinham visitar tinham que caminhar pelo quintal para se servirem, assim necessitassem.
Maria de Beleza morava com Beleza, sua irmã, na casinha da Rua Solon de Lucena, onde todas as tardes dois banquinhos de madeira pintados de azul claro eram postos na sombra da pracinha para que Maria e Beleza recebessem as visitas, pois era o que sempre acontecia. Familiares mais próximos como também os distantes, amigos, conhecidos, sempre tiveram um tempinho em seus dias para irem ver Maria e Beleza.
Primos de seus primos, sobrinhos de seus tios, filhos de seus amigos iam sempre que podiam conversar com as duas velhinhas, pois assim já o eram naquele tempo. As visitas em sua maioria iam para ver a situação apresentada naquele ambiente, porque realmente ali tinha o que se ver e o que se ouvir.
Maria tinha um físico raquítico. Um metro e cinquenta de altura e uns quarenta e cinco quilinhos mantidos com muito sacrifício pelas circunstâncias que lhe proporcionaram a vida.
Conservavase bastante, podese dizer até que exageradamente limpa, como ela mesma falava: “gasto um sabonete 'Lux' a cada banho”, e os seus enormes cabelos brancos estavam sempre impecavelmente penteados em forma de coque bem em cima da cabeça. Do primeiro momento do dia até o jantar, que acontecia às cinco horas da tarde, Maria mantinha seu rosto enrugado com bastante pódearroz e sua boca pintada com batom vermelho, aumentando bastante o tamanho original. Usava diariamente umas seis ou sete saias estampadas, uma por cima da outra, todas do mesmo comprimento, um palmo abaixo dos joelhos. E dentro de seus sapatos brancos de salto médio os pequenos pés estavam sempre calçados com meias “soquete” coloridas, não cobrindo o restante das pernas. Blusas com rendas brancas e muitos babados eram seu forte.
Dessa forma, sem mais nem menos, estava Maria de Beleza sentada na frente de sua casinha na Rua Solon de Lucena todas as tardes brigando com as crianças que riam da sua enorme risada, fina e alta, e se preocupando, bastante atenta, para que a chave de seu baú, mantido com enorme cuidado embaixo da cama, não desaparecesse da pulseira que estava sempre em seu bracinho fino, juntamente com muitas outras e também vários anéis, tudo ganhado de amigos ilustres, no passado.
As conversas de Maria eram atordoadas por lembranças de outrora, que fora tão diferente.
Filha de um abastado comerciante de tecidos e de Dona Santa, Maria, muito bonita, tivera todo luxo que uma moça de cidade pequena poderia almejar. Belos vestidos e jóias para desfilar nas “Festas de Padroeira” da pequena Esperança, além de muito carinho e dedicação dos seus pais.
Sempre conversando sobre acontecimentos passados, Maria em determinado dia desvendou um segredo que guardou durante muito tempo. E Mita, sua prima, carregou a missão de contalo para as novas gerações: Maria quando era jovem gostava de passar as tardes na loja de tecido de seu pai, onde apareciam caixeiros viajantes oferecendo as mais variadas novidades em tecidos. Numa tarde, Maria, como gostava de estar, muito arrumada, deparouse com um vendedor de nome Gerônimo, que havia vindo mostrar ao dono da loja novos tecidos. Maria embeveceuse com a beleza do rapaz e como a recíproca fora verdadeira a moça pediu para que o pai ajeitasse o namoro e este assim o fez. Então, Gerônimo passou a vir sempre em Esperança cortejar Maria, prometendolhe “mundos e fundos” para o futuro. A moça, cada vez mais apaixonada, desligavase das pessoas e coisas que faziam parte de sua vida para se dedicar com mais afinco a Gerônimo.
E Gerônimo desviava suas viagens para vir a Esperança ver Maria, mudando seus horários para ficar mais tempo com Maria, trabalhava menos para viver mais momentos com ela e assim tempos passaram... inesperadamente, sem motivo algum, “Girônimo”, como ela o chamava, deixou de aparecer. Sumiu!!
O pai de Maria tentou se comunicar com vários amigos em outras cidades afim de encontrar notícias do desaparecido. Esforço em vão. E Maria, que antes saía todos os dias, perfumavase todas as horas, maquiavase com todo cuidado, deixouse de lado. Trancouse em seu quarto por dias e dias. Dona Santa tentava compreender o que se passava com a bela filha, mas não conseguia, pois Maria não se comunicava nem com sua irmã Beleza, com quem tinha tanta aproximação.
Em uma manhã, quando a mesa estava exposta, organizada por Dona Santa para o café, Maria apareceu muito arrumada e penteada na cozinha, com um enorme pacote embaixo do braço. Tomou café com o pacote ao seu lado, saiu para visitar alguns familiares levando o pacote, passou o resto do dia com o mesmo embaixo do braço. Na hora de dormir, trancouo em seu guardaroupa advertindo com voz alterada que ninguém mexesse ali. No outro dia, e nos que se seguiram, o mesmo aconteceu. Para onde Maria fosse, ao seu lado estava o pacote.
Mita, prima de confiança de Maria, resolveu pedir para que ela mostrasse o que havia naquele pacote. Maria depois de muito negar e de enormes gargalhadas decidiu trancarse em seu quarto para desvendar o segredo. Mita sedenta de saber o que estava por trás de tão grande embalagem, ficou em pé diante da cama e Maria começou a desembrulhar o primeiro pacote, pois o grande embrulho era formado por vários, um por cima do outro, assim como suas saias, só que muito bem amarrados com barbante. E de pacote em pacote depois de tanto desembrulhar apareceu uma caixinha e de dentro desta, Maria de Beleza tirou uma foto três por quatro de “Girônimo” já bastante desgastada, porque ela lhe dava banho todos os dias.
Pasma, Mita estatelouse na cadeira que se encontrava ao lado da cama e esperou Maria refazer novamente seu pacote para saírem. Diante do fato, ela teve consciência de manter aquele segredo até o dia que Maria foi encontrada, enrolada em uma velha rede, na casinha da Rua Solon de Lucena, morta.
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Nota: Maria de Beleza, na realidade Maria Cavalcante, filha de Dona Santa, que era irmã de José Jesuíno de Lima, avô de Heloísa Duarte de Lima
Heloísa Duarte (*)

 (*) Este texto encontra-se publicado no perfil “Esperancenses pelo mundo”, e também disponível para download com edição de Evaldo Brasil na plataforma Calaméo, pelo link: http://www.calameo.com/read/00257461187e0ac240b0d


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