Crônica Politica: Zé João

By | 22.2.15 Deixe seu comentário
O matuto roceiro tem certa desconfiança de “dotô”. Na verdade, entre essas duas profissões, há um ranço antigo de quem leva a melhor. Cada um no seu fazer, acha que o outro trabalha menos e leva uma vida melhor ou põe-se gabando de sua força de trabalho.
A crônica a seguir, lembrada por Zé Cavalcanti, aconteceu no município de Esperança. Nestas paragens havia um produtor rural abastardo chamado Zé João que na época das campanhas políticas era muito procurado pelos candidatos, tal qual ainda hoje acontece nas grandes famílias de agricultores.
Conta-se que Rui Carneiro foi até a fazenda de Zé João chegando ali através de um cabo eleitoral. Chegando na propriedade foi recebido com muita festa, todos queiram apertar a mão do Senador, prestar-lhes os cumprimentos. Observando o político o mói de gente e sem ter muito assunto pra puxar, perguntou ao fazendeiro quantos filhos tinha:
- Tenho treze – respondeu Zé – doze home e uma muié.
- E tem algum formado? - perguntou o Senador.
- O sinhô tá perguntando se tem algum doto?
Antes que o político pudesse responder, Zé João apontou para um cachorro que dormia num canto de parede, e disse:
- Quem sabe porque não tenho nenhum filho doutô, é esse cachorro velho!
Como assim “esse cachorro”, perguntava-se o candidato.
- Sim, esse cachorro – respondeu o agricultor – que ele já veve rouco de acuá os doutô que vem me Tuma dinheiro imprestado...
Com essas palavras caíram na risada, pois o momento era de descontração.
Entre a matutagem, corriam uns versos que se não me falhe a memória era mais ou menos assim:

Cachorro bom é pedrigueiro
Bicho preguiçoso é doutô
Um sente da caça o cheiro
O outro, da caça o dinheiro.

Fogos subiam fazendo um grande estrondo. A gurizada corria no terreiro. Os homens bebiam cachaça, davam gargalhadas e esqueciam a dura labuta no campo. Depois de uma tirada dessas, que mais queria saber de doutô?
Ruy Carneiro foi interventor na Parahyba (1940-1945), e Senador por esse Estado durante 26 anos.
Em suas disputas gostava de utilizar o mote: “Forte é o povo”, razão pela qual as suas campanhas eram bastante populares.

Rau Ferreira

Referência:
- CAVALCANTI, José. Att all. Seu Zé da Paraíba: um livro de humor baseado na vida e na obra de José Cavalcanti. Editora Ahimsa: 1986.

- CARNEIRO, Rui. Alice Carneiro. Imagem da Mulher Paraibana a Serviço das Grandes Causas Sociais. Senado Federal. Brasília: 1977.
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