Pular para o conteúdo principal

As Benzendeiras, por Ana Débora

(*) Por Ana Débora Costa Mascarenhas

Li no blog do Rau Ferreira e Evaldo Brasil, um artigo sobre a benzedeiras de Esperança. Ah, Rau, quem já não foi a uma? Na rua do cemitério onde morei a infância e depois de casada voltei a morar, havia uma senhora muito simpática, D. Terezinha, ela benzia a meninada toda contra mal olhado, ventre caído e mais um monte de coisas. Nos meses que se antecedia ao dia de finados ela fazia flores de plástico como um cordão de pendurar no pescoço, as cores eram sempre as mesmas, azul, lilás e branco. No dia de finados ela vendia essas flores para os visitantes no cemitério. Eu particularmente nunca gostei de lilás, lembrava sempre de perdas e dias de finados.
Ao chegar nesse estado da alegria chamado Bahia. Essas flores ganharam novas configurações. Aqui as mesmas flores, confeccionadas do mesmo jeito são usadas no pescoço em dias de festas como as micaretas e carnavais. Eles são mais coloridos, afinal é festa.
As festas coloridas são mais marcantes, eu acho, e os colares de flores hoje não lembram mais enterros e funerais, mas lembram micaretas e carnavais. E assim como lá, cá também tem benzedeiras, acho que mais numerosas, essas mulheres de fé são realmente fascinantes. D. Terezinha estava sempre com a casa aberta, disposta a ajudar quem a procurasse. Hoje vendo essas mudanças e como elas são vistas com maus olhos pela sociedade em cidades grandes, e como são valorizadas em cidades pequenas onde a fé e a busca por curas diversas se resume a benzedeiras e não a hospitais.
Esses dias uma senhora de idade foi agredida física e verbalmente, por grupos religiosos aqui no bairro pelo simples fato de benzer contra o mau olhado crianças da periferia, e também pelo fato de ser do gênero feminino, a classe média não aceita que pessoas com baixa escolaridade e sem atendimento adequado médico, venham à bairros sofisticados em busca de benzedeiras, é inaceitável para a maioria intolerante. Ao ficar ciente dos fatos, me sinto como uma sucuri que engoliu um boi informacional. Fica difícil digerir tanta ignorância, por que o preconceito com pessoas que só querem fazer o bem?
E nessas voltas que o mundo dá. A gente percebe que a árvore que dar frutos é sempre a que mais recebe pedradas.

Ana Débora Costa Mascarenhas

(*) Engenheira agrônoma, bióloga, especialista em educação ambiental. Escreve  crônicas para O MUNDO DE DÉBORA (http://deboramascarenhas.blogspot.com.br/)



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Antiga fábrica de caixões

Houve um tempo que não existiam planos pós-morte e que o povo carente se enterrava com a própria rede. Ser conduzido em um ataúde para a morada eterna era um luxo para poucos. Os falecidos eram velados nas próprias residências de um dia para o outro. Servia-se café na cozinha, enquanto que os homens ficavam na sala contando histórias de “trancoso”. O município passou então a dar o artefato, mas dia sim e dia não tinha uma viúva batendo a porta da prefeitura, foi então que alguém resolveu instalar uma fábrica de caixões na rua Theotônio Tertuliano, por trás da Secretaria de Educação. O caixão fúnebre era construído dessas madeiras de caixa de batata, com alguns caibros para dar sustentação. Forrava-se com um plástico fino, de cor azul para homem ou roxo e rosa para mulheres. Na tampa se colocava um vidro para ver o ente querido. Era pequeno e, a depender do defunto, precisava fazer alguns ajustes. A prefeitura também dava a mortalha, que era um camisão, enquanto que as flores ficaram a …

Esperança sob o golpe do AI-5 (Parte I)

O AI-5 (Ato Institucional nº 5) foi o mais duro golpe da Ditadura no Brasil. Baixado pelo em 13 de dezembro de 1968, impôs uma série de restrições aos direitos individuais, conferindo carta branca para ações arbitrárias do governo. Muitos cidadãos foram perseguidos, presos, cassados, torturados e até mortos em nome do ultranacionalismo. As consequências deste nefasto ato chegaram a nossa pequenina Esperança, onde o Centro Estudantal que funcionava perto do calçadão teve suas portas arrombadas e toda a documentação espalhada pelo chão. De certo que os autores deste delito procuravam alguma prova que pudesse incriminar os estudantes, contudo nada encontraram. Um dos líderes estudantis por presságio ou algum sentido apurado, na manhã daquele dia retirou de lá panfletos e manuscritos que poderiam ser taxados de subversivos pelos militares. À noite quando o crime foi cometido encontraram apenas material escolar sem qualquer implicação. Em nossa cidade foram poucos os que ousaram se opor àque…

Boato de jornal

A festa da padroeira de Esperança podia ser vista de diversos ângulos: a homenagem que se presta a santa, a celebração de mais um ano com a liturgia do Bom Conselho, o pastoril com suas donzelas e o pavilhão onde se amealhava donativos através do leilão de pratos típicos. Nesse contexto, sempre existiu, o jornalzinho de festa, produzido pelos mais letrados da comunidade, veiculando fofocas, disse-me-disse e outras particularidades da nossa gente. Na vanguarda, temos “A Seta” (1928) de Tancredo Carvalho. Podemos citar, ainda, o “Gillette” (1937) de Sebastião Lima e Paulo Coêlho, que se perpetuou com Zé Coêlho e sua filha Vitória Régia. Pois bem. Nos anos 40 surgiu “O Boato”, com direção de Eleazar Patrício e gerência de João de Andrade Melo, que se denominava “Órgão da Festa de N. S. do Bom Conselho”. Impresso na tipografia S. João, de João Andrade, seu primeiro número circulou em janeiro de 1941, com os quadros: Verdades & Mentiras, Ontem e Flores Bela. Com versinhos, notícias fant…