As Benzendeiras, por Ana Débora

By | 22.2.15 Deixe seu comentário
(*) Por Ana Débora Costa Mascarenhas

Li no blog do Rau Ferreira e Evaldo Brasil, um artigo sobre a benzedeiras de Esperança. Ah, Rau, quem já não foi a uma? Na rua do cemitério onde morei a infância e depois de casada voltei a morar, havia uma senhora muito simpática, D. Terezinha, ela benzia a meninada toda contra mal olhado, ventre caído e mais um monte de coisas. Nos meses que se antecedia ao dia de finados ela fazia flores de plástico como um cordão de pendurar no pescoço, as cores eram sempre as mesmas, azul, lilás e branco. No dia de finados ela vendia essas flores para os visitantes no cemitério. Eu particularmente nunca gostei de lilás, lembrava sempre de perdas e dias de finados.
Ao chegar nesse estado da alegria chamado Bahia. Essas flores ganharam novas configurações. Aqui as mesmas flores, confeccionadas do mesmo jeito são usadas no pescoço em dias de festas como as micaretas e carnavais. Eles são mais coloridos, afinal é festa.
As festas coloridas são mais marcantes, eu acho, e os colares de flores hoje não lembram mais enterros e funerais, mas lembram micaretas e carnavais. E assim como lá, cá também tem benzedeiras, acho que mais numerosas, essas mulheres de fé são realmente fascinantes. D. Terezinha estava sempre com a casa aberta, disposta a ajudar quem a procurasse. Hoje vendo essas mudanças e como elas são vistas com maus olhos pela sociedade em cidades grandes, e como são valorizadas em cidades pequenas onde a fé e a busca por curas diversas se resume a benzedeiras e não a hospitais.
Esses dias uma senhora de idade foi agredida física e verbalmente, por grupos religiosos aqui no bairro pelo simples fato de benzer contra o mau olhado crianças da periferia, e também pelo fato de ser do gênero feminino, a classe média não aceita que pessoas com baixa escolaridade e sem atendimento adequado médico, venham à bairros sofisticados em busca de benzedeiras, é inaceitável para a maioria intolerante. Ao ficar ciente dos fatos, me sinto como uma sucuri que engoliu um boi informacional. Fica difícil digerir tanta ignorância, por que o preconceito com pessoas que só querem fazer o bem?
E nessas voltas que o mundo dá. A gente percebe que a árvore que dar frutos é sempre a que mais recebe pedradas.

Ana Débora Costa Mascarenhas

(*) Engenheira agrônoma, bióloga, especialista em educação ambiental. Escreve  crônicas para O MUNDO DE DÉBORA (http://deboramascarenhas.blogspot.com.br/)



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