O Cysne de Legenda

By | 13.1.15 Deixe seu comentário
Rau Ferreira*


Q
uando iniciei o meu estudo literário acerca da figura de Silvino Olavo não imaginava o ruído que trabalho me proporcionaria. Um zunido de palavras que evocavam um passado expressivo de glória e esquecimento. E alguém falou que o assunto era incipiente, sonolento...
Silvino possuía realmente uma inteligência multiforme. Político, poeta, jornalista, advogado... e uma incontável soma de atributos. Um homem de expressão como escrevera um dia. E um Cysne de Legenda que soubera compor.
Esperança nunca lhe foi grata pela emancipação política acontecida em 1925 - nunca foi o bastante! Uma biblioteca e uma rua com o seu nome é muito pouco para o que ele representou na história da Paraíba. A placa alusiva ao seu Centenário de nascimento jaz envergada na Praça da Cultura. E o poema que ali se lê – O meu palhaço – pode retratar muito bem esta passagem ingrata.
Com o seu “Cysnes” (1924) conquistou o Rio de Janeiro, sendo bastante aplaudido em seu ensaio poético. Ao chegar à pequenina Paraíba, o consagrado vate recebeu os auspícios de Promotor Público da Capital e Membro do Conselheiro Penitenciário, cargo que assaz lhe foi atribuído na carreira jurídica. Para depois assumir a chefia de gabinete do Governo João Pessoa.
Redator de “O Jornal” e colaborador de diversos periódicos, a exemplo da Revista “Era Nova”, integrou o quarteto fantástico ao lado de Severino, Perillo e Orris – heróis de uma geração. Com Samuel Duarte, José Américo de Almeida e Eudes Barros, chegou a compor o quadro da intelectualidade paraibana que publicava n'A União.

Foi o seu abraço afetuoso que o autor de “Macunaíma” (Mário de Andrade) registro em suas crônicas quando em visita a Paraíba no ano de 1929.
Para ele, não foi o bastante ser o fiel representante do simbolismo neste Estado. Era preciso ser inédito e assim apareceu a sua “Sombra Iluminada” (1927), reflexo de uma vida turbulenta.
A doença também foi sua fiel companheira, desde que intentou acompanhar o seu menestrel nas eleições de 30. No Recife veio a sua primeira crise. A que sucederam tantas outras para findar solitário numa colônia de alienados.
Vinte anos mais tarde salvou-lhe o cunhado Waldemar, a quem anteviu “uma luz”.
Em momentos de lucidez deixava todos atordoados com sua capacidade de compor. E até um cachorro virou amigo-cachorro porque muitos não o são.
Residindo na capital paraibana produzia e produzia, foram muitos os textos dentre os quais conseguimos copilar, em nossas pesquisas, “Política e Democracia”, “Criadores e Criaturas”, “Glória in Excelsis Deo”, “As Razões do Négo Parahybano” e “Gritos do meu tempo”, de um total de 39 recolhidos até agora. Sem contar que Emílio de Ibiarra, publicando em um jornal argentino, louvou-o em página de relevo.
Em Esperança, embora obscuro, transcrevia nas páginas em branca de alguns livros a sua musa “Badiva”. Enquanto isso, Pedro Calmon escrevia as “Memórias” do colega de faculdade, a quem a maioria da turma incumbiu de proferir o discurso de formatura.
A esse respeito, em especial, recebeu elogiosa crítica, pela tese inovadora, mostrando já na década de vinte, a necessidade de se reformar o direito sob bases mais humanas e universais.
Silvino ainda hoje preocupa. Suas ideias liberais e sua força estética movem velhos moinhos. Olavo amedronta. Passeando pelas ruas desta Banabuyé no caminho da Beleza para o bar do primo Antônio, contrariava o cenário político e admoestava estudantes de direito que o julgava desconhecedor de seu tempo.
Festejado lá fora, inúmeros são os livros que fazem referência a sua obra e aos seus textos, servindo inclusive de base para estudos de sua época. Citemos “Morte e Vidas das Oligarquias” de Eliete de Queiróz e “Sertão Alegre”, de Leonardo Mota.
Ao menos o seu epitáfio final -  Alpha de Centauro – poderia sair do papel. Mas quem detém os direitos autorais? Quem poderia imprimir? A família, talvez. Um aventureiro, quiçá.
As folhas do “Novo Tempo”, de Evaldo Brasil e companheiros, fizeram a sua re-estréia em 97. Nelas repousam “O Mafuá” e o “Trem de Ferro”. Relíquias desse Príncipe da Poesia.
A sua memória não pode se esquecida.
A Paraíba merece este presente... o Brasil... o mundo! Por que não? Chamem-me de louco ou apaixonado, dá no mesmo!
Será que agora você vai conseguir dormir com este barulho?

Rau Ferreira*



(*) Cidadão esperancense, bacharel em Direito pela UEPB e autor dos livros SILVINO OLAVO (2010) e JOÃO BENEDITO: O CANTADOR DE ESPERANÇA (2011). Prefaciador do livro ELISIO SOBREIRA (2010), colabora com diversos sites de notícias e história. Pesquisador dedicado descobriu diversos papéis e documentos que remontam à formação do município de Esperança, desde a concessão das Sesmarias até a fundação da Fazenda Banabuyê Cariá, que foi a sua origem.


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