Reminiscências de Esperança (Epaminondas Câmara)

By | 2.6.14 Deixe seu comentário
Recebi do confrade e amigo Bruno Gaudêncio, através de uma rede social, um texto de Epaminondas Câmara onde este relata um caso ocorrido em Esperança, sua terra natal.
Bruno além de poeta ilustre, editor de uma importante revista (Blacaute) integra o corpo do nosso IHCG. Com perspicácia incomum, nos remete este achado de grande importância para a nossa história. Eis o texto na íntegra:

CIDADE DE ESPERANÇA
Reminiscências do começo do Século

O valentão dali era Manoel Pelado, o terrível acaba feira que dizia não ter medo de ninguém. É certo que respeitava não sei por quê Bento Querino e o cabra João de Banda. Se estes estavam perto, o Pelado conservava-se tão mansinho que dava o que falar. Mal se distanciavam, o homem se transformava.
Debaixo da gameleira em frente a casa de “seu Zezé” dominava o terror. Pelado dava sortes, pintava Satanaz; jogando os outros perdiam, bebendo os outros pagavam, brigando os outros apanhavam... O vencedor n. um de todas as lutas.
Corriam histórias as mais impressionantes em torno da sua nunca desmedida bravura. E como em assuntos de valentia o exagero das massas é mais acentuado, diziam dele que brigava até de foice... Que um exímio jogador de espadas fora vencido quatro vezes... Que matara uma onça pintada na serra dos Quintos com um canivete... Que dera um apertozinho de mão tão suave no macaco do italiano, que o pobre do símio deixou de existir... Que montava em potros os mais bravios sem cair, e conquistava sempre a argolinha das cavalhadas... Que fizera isto e aquilo.
E o famoso leão, o terror de Esperança, zombava de todos, zombava da própria sorte, insultando civis e soldados e passeando acintosamente pela calçada da bolandeira do Padre Inácio, na qual estava instalado a cadeia com os indispensáveis instrumentos de suplício da época: as algemas, os anjinhos, a gargalheira e o tronco.
A preta Generosa, velha tímida e ingênua, “pr’a dar jeito àquele dimunho somente Ioiô de Genu e’uma trave”. Mas a negra Redonda matreira, acostumada com o inundo, achava que “aquele galo cantava agora porque Neco Delegado não era mais delegado”. Entretanto o Zé Meu, malandro e supersticioso, assegurava que ninguém bolia em Mané Pelado porque este “trazia figa no pescoço e andava c’uma oração forte”.
Mas numa tarde falharam a “oração forte” e a figa. As burugangas perderam a virtude, a faculdade de torná-lo invulnerável. Manoel Pelado voltara da feira de Esperança pela estrada das Lagoas. Bebera na rua e bebera perto da casa de Santo Cabugá. Bebera e não pagara. Estava acostumado a ninguém cobrar dele. Quem era doido? Adiante parou um botequim de gravatá. Queria mesmo encher a cabeça. No botequim despachava sozinha uma velha. Pelado não queria gengibirra nem sequilhos, pedira cachaça – “Um copo bem cheio”. Mas a velhinha, ciente da fama que ele também gozava de “grandessíssimo velhado” que não pagava nem promessa a santo, negou-se a atendê-lo alegando que não vendia fiado.
A fera rugiu. Foi um vulcão! E como o infame dos celerados investisse contra a pobre para estrangulá-la, a reação desta santa mulher não se fez esperar. Sentindo a pobrezinha faltar quem a defendesse, num impulso instintivo de conservação, serviu-se duma quicé de descascar laranjas e esperou o temível agressor. A hora do insolente, como sempre acontece a todos os insolentes, era chegada. Ao levantar as mãos hercúleas para bater na heroína e indefesa sexagenária, não pode mais. É que um segundo antes, recebe no baixo ventre um único ferimento que o prostra por terra morrendo.
Sob a dirimente de legítima defesa a heroína foi absolvida.
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Sepultado Manoel Pelado, não havia brejeiro pé de frieira, nem valentão de Meia Pataca que não contasse das suas... Já agora todo mundo tinha coragem de brigar com Manoel Pelado. Mas a negra Redonda, sempre intrometida e cada vez mais linguaruda, ouvia a “farófia” desses novos heróis e não deixava de ironizar: - Depois dele morto todo mundo briga! Ó terra de gente valente!”.

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Epaminondas Câmara nasceu em Esperança no dia 04 de junho de 1900, sendo filho do casal Horácio de Arruda Câmara e Idalgisa Sobreira Câmara. Ocupou a Cadeira Nº 18 da Academia Paraibana de Letras, descobriu a “Civilização da Farinha” e foi grande intelectual, produzindo diversos textos para a imprensa campinense. Faleceu em 28 de abril de 1958. Seus restos mortais repousam no Cemitério N. S. do Carmo, em Esperança.
Esta reminiscência foi retirada da Revista Ariús, editada em Campina Grande em 10 de outubro de 1952.


Rau Ferreira
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