Cantoria do chá dançante

By | 1.6.14 Deixe seu comentário
Dogival Costa (1908-1979) cultivava além de boas amizades, o gosto pela poesia popular. A sua Loja Brasil – situada nas confrontações da rua do Sertão com a avenida Manoel Rodrigues, onde hoje funciona uma farmácia – era o ponto de encontro de políticos, intelectuais e pessoas das mais diversas classes. Pedro Pichaco muitas vezes acorreu ao amigo para contar das suas, ou livrar-se de algum “aperreio”.
Vereador por três mandados, e vice-prefeito de Antônio Coêlho (1969-1973), possuía também uma casa de bailes, chamada de “Chá Dançante”, que até os anos 50 funcionava no primeiro piso, por sobre a sua loja de tecidos.
Não obstante o domínio masculino que existe no repente, não é incomum a presença de mulheres violeiras. Citemos: Maria das Dores, Mocinha da Passira, Maria Soledade, Minervina Ferreira, Maria Lindalva e Vânia Bezerra.
Pois bem. Em 1942, escreveu o comerciante para o repentista José Alves Sobrinho, que à época topava qualquer desafio e viajava mundos e fundos por uma cantoria. Disse-lhe na missiva que em Esperança havia uma mulher conhecida por Terezinha Tietre (Terezinha Dantas) que era “muito repentista e preparada nas letras”. O trovador dirigiu-se então a nossa cidade, hospedando-se no hotel de José Lino.
Depois de um laudo almoço, procurou seu Dogival no seu estabelecimento para acertar o embate. Marcado o desafio para as nove horas da noite, restava apenas esperar.
A cidade era acolhedora, o comercio pungente chama a atenção. E conhecida pelos troavadores, pois corda boa para viola e violão só se achava na Miudeza de seu Patrício Firmino Bastos.
Quando chegou ao Chá Dançante, Zé Alves já encontrou Terezinha, que ao lado de sua mãe, esperava o desafio. Começaram então afinar os instrumentos, no aguardo de pessoas para assistirem.
Os cantadores começaram a peleja, cada um fazendo um verso e sendo rebatido pelo outro. O povo aplaudia, achava graça e pedia bis. Foi assim até as onze horas, quando encerrada a apresentação, foram contabilizar o dinheiro ganho naquela noite.
O apurado foi duzentos mil réis, uma boa soma para os dois desafiantes. Embora não considero que neste tipo de espetáculo haja vencedores, escreve José Alves em suas memórias, que levou vantagem.

Rau Ferreira

Referência:
- MOMENTO FEMININO, Revista. Ano IX, N. 118. Edição de Junho. Rio de Janeiro/RJ: 1956.

- SOBRINHO, José Alves. Cantadores com quem cantei. Ed. Bagagem. Campina Grande/PB: 2009.
Postagem mais recente Postagem mais antiga Página inicial

0 Comentários: