A Lenda Caricé

By | 1.12.11 Deixe seu comentário
Índios Tapuias (fonte: wikipedia.org)


E
sta lenda éreproduzida pelo Padre Luiz Santiago [1897/1989], que também foi arqueólogo,pesquisador e escritor, além de outras coisas. O religioso ouvira contada pelaescrava forra Gertrudes, na propriedade de Meia-pataca.
A comoção popular deu àquele drama o nome de Caricé. A palavra vem dotupi-guarani, formada da junção de Caraibae . A primeira significando osábio, o santo. A segunda, o canto. O canto do sábio, por aglutinação.
Dizem que dentre os moços do serviço de demarcação das Datas de Sesmarias[data provável 1778], havia um que costumava cantar, nas horas de folga, à modade endecha, ao som de um dolente violão, aos pés de uma cacimba pública, umatriste canção, tendo por acompanhantes os pássaros canoros e o murmúrio dosventos. Por quem uma jovem índia se apaixonou.
O jovem encantador era conhecido por Morais, filho de João de MoraisValcácer, um dos donatários da região.
Ela era da linhagem dos Banaboiés de Esperança, da Tribo Cariri quepovoava o interior da Província. E chamava-se Yara.
O local onde se deu o drama – Meia-pataca- fica entre as terras de Remígio e Esperança, compreendendo as Sesmarias deBanaboié e Riachão de Banaboié, de João da Rocha, Manuel Gonçalves Diniz e LuizBarbosa da Silva, de n°s 441, 759 e 930, enumeradas no livro de João de LyraTavares.
Começou colhendo frutos e oferecendo ao amado e de tanto ouvi-lo cantar,aprendera a doce melodia do amor. Deixara-se envolver pela voz suave do manceboe seus encantos aloirados.
Ao regressar a equipe de topógrafos a jovem índia sentiu tornar-seindefinida paulatinamente. Tudo ao seu redor fazia-lhe lembrar do amado: osfeixes de abrolhos, os duros espinhos dos cactos, as escarpas dos montes e oazul do céu. Por consolo canta o que aprendera. Via numa estrela a figura doestrangeiro, que transmudara de forma a cada nova canção. Era o seu consolo.
Os vizinhos acompanhavam de perto aquele drama. A jovem insulada mergulhanum estado de alucinação. Pensara que seu ídolo fora residir nas regiõesetéreas e passara a viver num dos astros.
As luas lhe dão esperança e contentamento, mas ao final tudo é desenganopara a jovem tresloucada. Procura dormir, mas o sono não vem. E toma adeliberação de fazer u’a prece à Yaci, pedindo à mãe-lua que lhe dê um fruto. Ea esperança lhe renasce.
Mas ao cabo de alguns meses o rebento não vem.
Talvez o Guaracy [sol] lhe traga algum alento.
Mas Guaracy, iluminando os prados nada trouxe. E a índia sepultadefinitivamente aquele amor jamais contido.
Yara chora cantando a sua dor, apanágio da alma. E assim como o orvalhonutre o coração das flores, as lágrimas da índia sublimam o seu ventreinterior. E a alma do herói soergue-se, se é que a índia pudera assim fazer.
O espectro daquele amor da juventude é mesmo rude, como aqueles de suatribo.
Um transeunte pergunta dos pais ao filho de menor. E este maquinalmenteresponde:
- A mamãe está de resguardo,pagando na cama os prazeres de outrora!
A palavra Caricé é de fato a síntese desse drama selvagem, vivido no seiodas matas do sítio Meia-pataca.
Luiz Barbosa da Silva comprou a João de Morais Valcácer as terras das Sesmarias Nº 759, a qual extrema com asterras dos herdeiros de João da Rocha, denominado de Banabuyé.

Rau Ferreira

Fonte:
- SANTIAGO, Pe. Luiz. Fatos e lendasdo meu sertão. Ed. A Imprensa: 1965
- TAVARES, João de Lyra. Apontamentos para a História Territorial daParaíba, Vol. I, Imp. Of., Pb., 1910.
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